quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

G.

Estou olhando pela janela desse edifício há horas, e acho que nunca fumei tanto na minha vida. Tu certamente diria que eu deveria sorrir agora, que tudo está bem, mas não, não está. Tu e tua mania adorável do "não faz mal". Mas tem coisas que fazem mal meu amor, ah, e como fazem.
Nessas madrugadas eu tenho sentido a tua falta, imensamente. Mais do que tu possa imaginar. Eu sei, é besteira, assim como algumas pessoas poderiam considerar besteira o que vivemos, o pouco que vivemos. Mas nós sabemos que há muito mais por trás daquelas noites esparsas. É inútil, mas ainda guardo teus presentes, teus bilhetes, teu cheiro. Principalmente teu cheiro e teu gosto, tua voz rouca.
É estranho que estando na mesma cidade, sendo tão possível, eu continue aqui, mesmo sabendo o quanto isso tudo foi bom. Acho que foi bom justamente por ser manso, por ser despretensioso. Teus olhos brilhavam no escuro e tu dizia que tudo parecia um sonho. Não nego, lembro daquilo como um sonho também. Nós caminhando bêbados de madrugada na rua, rindo do asfalto, nossos cabelos se misturando, nem lembro quantas horas passamos juntos aquela noite, mas lembro que enquanto os outros se despediam e se afastavam, nós continuávamos ali, completamente absortos um no outro, sem a mínima noção de tempo, como sempre. Lembra como eles se irritavam conosco? Nós ríamos e continuávamos nos beijando. Como talvez nunca deveríamos ter parado de fazer.
Teus amigos me disseram que tu é cheio para mulher, que nunca tinham te visto agir como agia comigo. Tua timidez torna isso ainda mais lindo. Nós meio que nos descobrimos às cegas naquele lugar, não sei explicar como. Mas existiu e existe aquela afinidade inexplicável, e é por isso que sinto a tua falta. Não, não aquelas coisas de ficar de cama chorando e querer sair correndo, tentando achar uma maneira de fazer tudo certo. Não. É uma dorzinha chata, feito garoa que nunca se transforma em chuva mas fica incomodando o dia inteiro. Sinto falta da tua existência, poxa, e de algo que me escapa, quase como se fôssemos outras pessoas quando estamos juntos. Pessoas mais felizes, mais livres do que somos quando distantes um do outro. Acho que se passarmos dez anos sem nos vermos, ainda trocaremos aquele mesmo primeiro sorriso. Porque é assim que as coisas são.
Lembra do quanto era bom ficar ouvindo Led e Deep Purple a noite inteira, bebendo, conversando, se esquecendo do mundo? Acho que não há outra pessoa que saiba fazer isso como tu. Estávamos adormecidos, mas vivíamos quando estávamos juntos. Talvez agora estejamos bem, mas sei que um dia precisaremos um do outro de novo. E tenho certeza que nesse momento nos encontraremos, sem sequer lembrarmos disso.


"Living reflection from a dream
I was her love, she was my queen
And now a thousand years between

Thinking how it used to be
Does she still remember times like these?
To think of us again and I do"


Leve e perfeito como essa música, te guardo em mim. Escrevi esse trecho uma vez depois de ter escrito sobre ti. As coisas vão seguir o seu fluxo, como sempre, nós sabemos bem. Mas às vezes o fluxo pode ser favorável. Até lá, guardo as tampinhas.

Nenhum comentário: