quarta-feira, 20 de julho de 2011

All My Life

  
                Apesar do vento frio da manhã no litoral, ela havia pego o costume de andar na praia, mesmo que apenas com o seu robe. Morava quase em frente à praia, uma das poucas praias indesejadas pelos turistas por causa do frio que geralmente fazia ali. Para ela, isso era bom. Tinha seu momento de paz caminhando de pés descalços todas as manhãs, antes de voltar para a realidade. A tão insuportável realidade.
                Talvez não tão insuportável assim. Agora seu filho havia começado a estudar, então ela passava os dias sozinha em casa, até seu marido chegar. O trabalho como colunista de um jornal não era exatamente algo que lhe ocupasse muitas horas, apesar de ela gostar muito de ler tudo o que lhe caísse nas mãos para que pudesse escrever cada vez melhor. O cotidiano era simples e até mesmo agradável: acordar cedo, arrumar o café para seu marido, comer suas habituais torradas com manteiga, caminhar na praia, escrever, ler. E provavelmente por ter um cotidiano tão simples é que o passado era tão capaz de assombrá-la.
                Certamente os anos passaram depressa. Era quase como se, num dia, estivesse no funeral de seu pai e no outro estivesse embarcando seu filho no trem para a escola. Na época, nada parecia mais justo: a guerra havia acabado, o casamento aconteceria exatamente como o planejado. Teve um filho homem, que herdou a aparência do pai com uma semelhança tão grande que não se podia distinguir as fotos de ambos. Tudo estava bem, ela repetia para si mesma, afinal, era uma mulher crescida e as marcas de tudo que passara deveriam simplesmente permanecer em silêncio. Mas não era nada fácil ignorar tudo o que havia acontecido.
                Deixando de olhar seus pés, levantou a cabeça para o olhar o mar, e nisso vislumbrou algo alaranjado. Virou-se para olhar e, quase como se fosse uma miragem, a alguns passos de distância ali estava ele, seu melhor amigo, o homem que nunca deixaria de ser o seu menino, com o qual ela poderia ter brincado pela vida afora sem receios. Poderia mesmo. Ainda abraçando seus próprios ombros, ela simplesmente ficou olhando-o, meio que não acreditando que ele estive ali, ainda mais depois de anos sem sequer vê-lo. Igualmente sério, ele caminhou na direção dela, os cabelos ruivos parecendo ainda mais flamejantes sob o amanhecer róseo. Caminhava com as mãos enterradas nos bolsos dos jeans, sem pressa, com uma certeza um tanto desconcertante.
                - Eu não fiquei longe nem sequer por um dia - disse, simplesmente, quando se aproximou. Ela o olhava séria e calada, os olhos azuis, as sardas, a boca bem desenhada, os cabelos extremamente ruivos e revoltos. O olhar grave e intenso, tão diferente do ar brincalhão costumeiro, o ar maduro que ela raramente havia visto. Não ousaram se tocar. Ainda era difícil demais.
                Provavelmente as coisas se tornavam tão difíceis pela lembrança de uma outra manhã, há mais de 19 anos. Uma manhã onde tudo que existia para ela eram suas perdas, principalmente a morte do seu pai. A manhã em que ele rompeu com o isolamento de dias dela, irrompendo pela sala íntima completamente decidido: ele largaria tudo por ela. Primeiro, ela ficou estupefata, depois achou graça, considerando isso apenas uma reação exagerada dele, causada pela sua imaturidade.
                Mas aos poucos percebeu que, por mais previsível que aquilo pudesse ser, ele estava sendo inteiramente sincero. E percebeu também que era mais do que justificável, era certo o que ele estava fazendo. Talvez não com os outros, não com mais ninguém, mas com eles próprios, sim. Faltava menos de uma hora para que ele assumisse o noivado com outra jovem, e mesmo sabendo que ela estava noiva, que estava completamente perdida em si mesma e fechada para o mundo, precisava ter certeza, saber que nada ficaria para trás. "Noivados podem ser desfeitos. Nossas vidas não." disse ele, com uma gravidade que a teria feito rir pelo próprio conteúdo da frase, mas subitamente isso parecia fazer sentido. Ele a beijou, gritou, como se ela simplesmente não houvesse acordado direito ainda e ele pudesse despertá-la, para ouvi-la dizer que tudo ficaria bem. Mas não ficaria. Para nenhum dos dois.
                Ela passou um dedo lentamente pelo rosto dele, como se apenas desejasse verificar se ele era real ou não.
                - Você e ele tiveram um filho. Você costumava trazê-lo para a praia quando ele era bebê, e vocês dois ficavam por horas perto do mar. Ele chegava do trabalho cedo da tarde, e ficava brincando com o seu filho completamente aparvalhado por ter um filho com você, por estar com você. Vocês nunca brigavam.
                - Como...?
                - Não importa. Só estou tentando te dizer que nunca deixei, por um dia sequer, de pensar em como você estava - ele respirou fundo. - Eu só continuei te cuidando de longe, exatamente como fazia na escola quando ninguém podia saber que eu te amava. E as coisas, essencialmente, não mudaram, não é mesmo?
                Ela simplesmente não sabia o que dizer. Não havia mágoa na voz dele, tampouco raiva. Ele apenas estava lhe contando coisas, exatamente como sempre fazia, quase como se contasse que havia ido mal numa prova mas talvez fosse ganhar o presente de Natal que queria. O dia já havia quase que completamente amanhecido, era hora de voltar para casa, preparar o café, escrever para o jornal e para seu filho. Mas naquela manhã, finalmente, as coisas seriam diferentes. Beijou-o, completamente segura de si, porque não era justo um protagonista se tornar um simples expectador. Um protagonista deve sempre continuar nessa situação e ele voltou, ensinando-a a rir outra vez, dando-lhe gêmeos ruivos e uma casa agitada e alegre. Quase como se o passado não houvesse acontecido. Quase.
               

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