sábado, 23 de julho de 2011

To Belong

  - Você está ficando igualzinha a mim - disse ele, entregando-lhe uma caneca de café e sentando-se ao seu lado com um sorriso. Ela o olhou e riu, estavam com óculos com armações praticamente iguais, roupas da mesma cor e ela havia herdado cerca de 90% das características físicas dele. Mas quanto à personalidade, era diferente. Ela era a nova vida dele, simplesmente. A versão jovem dele sem tirar nem por. As paixões, os medos, os erros, os hobbies e até mesmo as expressões faciais eram as mesmas, com a diferença de que ela não estava sozinha. Ela tivera a sorte de tê-lo sempre. Olhou-o demoradamente, com carinho, e disse:
    - Sinto informá-lo, mas eu sou igualzinha a você desde que fui gerada - ele abriu um largo sorriso. - É a coisa que eu mais me orgulho na minha vida, e olhe só, eu nem fiz nada para isso acontecer - ela riu com ele, mas logo ele ficou pensativo. Ela não precisou lhe perguntar nada.
    - Outro aspecto positivo de você ser tão igual a mim é que eu posso ver mais claramente seus erros - ele a olhou profundamente e ela o encarou de volta, intrigada. - E eu sei perfeitamente bem que essa história toda de ir embora sempre é um erro.
      Ela desviou o olhar, segurando a xícara como se ela pudesse lhe dar algum conforto. Ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria inevitável chegar nessa parte. Porque ninguém quer ver a pessoa que mais ama viajando pelo mundo, ainda mais se sabe que ela vai ficar sempre com saudade de casa. O pior de tudo, além disso, era aguentar a saudade. Quando ela estava em casa, eles não se desgrudavam e faziam festa por cada pequena coisa - até mesmo almoçarem em silêncio juntos era uma festinha interna. Porque a afinidade deles era assim mesmo, era simples e bom: estavam juntos, e não importava mais muita coisa, porque mesmo o que doía não doía tanto ali, quando estavam por perto. Que perigo poderia haver estando num lugar onde ela poderia chamar por seu pai e tê-lo ao seu lado no instante seguinte? Ambos acreditavam nisso e por isso mesmo sabiam que ele tinha razão. E por isso mesmo ele teve de pensar muito no que dizer para ela.
   - Às vezes eu te conheço melhor do que conheço a mim mesmo, e por isso posso te dizer que, definitivamente, não é por não depender mais de mim que você vai amadurecer e, afinal de contas, se fosse assim, você já provou isso muito bem nos anos que passou longe.
     - Eu nunca estive realmente longe...
    - Enquanto você não voltar todos os dias para casa e eu não tiver pelo menos uma refeição com você, você não está morando aqui. Nós sabemos disso. Visitas periódicas não significam que você ainda está aqui - ele suspirou. - Não, de forma alguma - acrescentou ele, balançando a cabeça e tentando não demonstrar tristeza, mas falhando totalmente. Ela o olhou preocupada. Não sabia que sua ausência era capaz de atingí-lo tão seriamente. Seu pai sempre fora, de certa forma, um homem sozinho, e ela honestamente não sabia que ele preferia tão intensamente estar com ela. Depois de tomar um gole de café e ficar por um longo tempo olhando uma foto deles no wallpaper do computador, ela falou baixo, mais para si mesma:
    - Eu tenho medo.
     Repentinamente, ele viu claramente a menina de quatro anos que ia para o seu quarto e era capaz de ficar uma noite inteira sem dormir se não o tivesse por perto. Reconheceu a menininha que dependia dele para viver lutando com toda a coragem que podia reunir para dormir sozinha em seu quarto, nem que fosse apenas uma noite por semana, apenas para vê-lo feliz. Passou a mão pelos seus cabelos macios e compridos que escorriam por suas mãos, como sempre fizeram, e fez com que ela o olhasse. Os olhos dela tinham aquela velha expressão de medo, aquela luta interior que ele não entendia como não a fazia chorar todos os dias. E ela ainda mordia o lábio inferior, exatamente como fazia quando ainda não era mais que um bebê.
    - Então vamos ficar juntos - sussurrou ele. - Vamos ficar juntos, e a lua vai se transformar em sol e se algo de ruim acontecer, bem, pelo menos nós estávamos juntos até o fim. Como sempre.
    Ela pulou para o seu colo e se acomodou como sempre, como se houvesse ali o espaço perfeito para ela. Ele a abraçou forte contra si, querendo sentir o cheiro dos cabelos dela e protegê-la de tudo. Protegê-la até o fim.

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