domingo, 24 de julho de 2011

Mikrokosmos XXI

    Rindo sinceramente como, aliás, ele não se lembrava de jamais tê-la visto, ela lia uma lista realmente grande que tratava de algum assunto completamente desconhecido para ele mas que, visivelmente, dava-lhe maior prazer do que qualquer outra leitura. Limitou-se então a observá-la, tanto para não atrapalhar quanto por sentir um pouco de ciúmes de vê-la se divertindo tanto sem ele. Subitamente ela o olhou e sorriu, como se só agora notasse que ele também estava no quarto.
    - E então, amor, como vai o Chudley Cannons?
    - O quê? - ele franziu o cenho, sinceramente confuso e ela caiu na gargalhada outra vez. De fato, ele não sabia da existência de nada capaz de fazê-la rir daquela forma e tampouco fazia ideia de sobre o que ela o havia questionado. Esperou pacientemente que ela explicasse uma coisa, qualquer coisa, mas haviam dias em que ela simplesmente acordava tão puramente excêntrica que o melhor era nem tentar entender. Esse parecia ser um daqueles dias.
    - Esses ingleses... - ela balançou a cabeça, sorrindo e olhando carinhosamente a lista. - Nessas horas morro de saudade do meu país. Não existe humor mais autêntico do que esse.
Levemente irritado pelo patriotismo dela não ser finlandês naquela manhã, ele atravessou o quarto e foi tocar algumas composições aleatórias no teclado, vagamente magoado pelo distanciamento dela. Ela sequer se deu por conta disso, até pelo contrário: pegou um livro na sua estante e voltou para a cama já lendo. Logo estava rindo outra vez e ele a olhou irritado, finalmente chamando sua atenção.
    - Isso é divertido - disse ela, dando de ombros. - Perdão. Vou lá para baixo para não te atrapalhar e...
    Ele foi até ela, olhando-a gravemente. Ela permaneceu esperando-o em silêncio.
    - Você não voltou da Inglaterra - acusou ele, sem raiva.
    - Demora um pouco, você sabe. Mas eu vou logo me reacostumar à Finlândia e logo serei mais patriota do que você outra vez...
    - Não é verdade. Não dessa vez.
    Ele tinha uma lista de motivos estabelecida mentalmente, e que o deixava sinceramente apavorado. Ele sabia muito bem que dessa vez ela voltara querendo ficar na Inglaterra. Nada mais justificava suas intermináveis conversas ao telefone com seu pai (quando antes eram diárias mas apenas rotineiras, no geral), seus amigos ligando constantemente, sua atual preferência (ou seria melhor dizer predileção?) por tudo que fosse inglês: de literatura e música até culinária, ela até mesmo dormia com a televisão ligada em qualquer rede britânica e quando ela finalmente estava cochilando e ele perguntava se podia desligar, ela se limitava a murmurar "Eu quero... Quero dormir com sotaque britânico... Quero inglês britânico um pouco", sem sequer abrir os olhos, como uma criança com seu desenho animado favorito.
    Mas todos esses sinais eram secundários. O real e verdadeiro problema é que ele já não podia atingí-la, simples e puramente. Via-a perdida em devaneios, escrevendo, ouvindo música ou mesmo apenas fumando e olhando pela janela, e seu olhar era simplesmente impenetrável, assim como suas conversas, mais lacônicas do que nunca. Não raramente ela o fazia duvidar do que diziam sobre os finlandeses serem mais fechados que os ingleses, porque ela podia às vezes ser tão honesta e profundamente hermética que o fazia duvidar que se a ligação que tinham antes não era apenas fruto de sua imaginação.
    Enquanto olhava-a, tentando desvendá-la em silêncio como fazia naturalmente há algum tempo atrás, o telefone dela tocou e só pela música ele sabia que era o pai dela outra vez. Não a culpava por atendê-lo e tampouco por amá-lo de forma tão extraordinariamente intensa, mas seria ela capaz de voltar para a Inglaterra simplesmente para ficar com seu pai? Sabia que ela ainda era jovem, sabia também que seu pai era um homem incrível, mas não seria o casamento mais forte do que isso, já que estando na Finlândia ela não abandonava o seu pai, mas estando na Inglaterra definitivamente abandonava ele? Talvez ele devesse ficar feliz, afinal, tivera a sorte de viver algo inexplicável, exatamente como sempre quisera. O problema é que a finitude nunca estivera incluída em seus planos. Jamais.
    Resolveu descer as escadas e preparar um café preto bem forte, já que estava tentando parar de fumar e vinha sendo relativamente bem sucedido em seu empenho, mesmo que sentisse que logo logo isso fosse esmorecer, principalmente se qualquer coisa de ruim acontecesse. Então ficou parado, ainda na escada, observando-a lá embaixo, falando e sorrindo ao telefone, usando palavras que não significavam nada para ele mas que, obviamente, eram totalmente compreendidas pelo pai dela. Deu um sorriso triste e resignado: o que ele esperava, afinal? Nunca tinha notado o quanto gostava do sotaque britânico dela, tampouco de suas características tão tipicamente inglesas. E afinal, quem saberia? Ela era livre. Mas seria amada.

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