Incrivelmente, ela se sentia menos magoada quando ficava ali, olhando a baía, perdida na imensidão das águas. Era tão cansativo estar sempre magoada pela mesma razão, que o cansaço já havia aderido à sua tristeza há tempos. Hoje, justamente hoje, quando ela precisava de fato conversar com a sua mãe, ela simplesmente não tinha tempo. Como sempre.
- Quando eu tinha a sua idade, eu ficava por horas aqui pensando também.
Ela sobressaltou-se. Olhou para quem falara: era uma bonita e jovem mulher, no máximo com 28 anos. Tinha um sorriso doce e intensos olhos verdes. Seu olhar também estava perdido nas águas.
- É, é um bom alívio - respondeu então, depois de alguns instantes. - Quando eu morava em Liverpool, passava horas e horas olhando o oceano.
- Se me permite...é um namorado? - perguntou a mulher e, apesar de não gostar de intimidades, ela simplesmente gostou da curiosidade dela. Talvez fosse pela doçura ou pela gentileza daquela mulher, não sabia ao certo, mas sentia um carinho inesperado por ela, como se ela fosse uma velha amiga. Ela sorriu tristemente e disse, com um ar cansado:
- Eu até gostaria que fosse. Não, nunca foi um namorado, sempre foi a minha mãe.
- Ah, eu também tenho problemas com a minha mãe - disse a mulher parecendo realmente consternada. - Sinto muito.
- Não, está tudo bem. Sinto muito que você tenha problemas com a sua mãe também.
- Estou acostumada - disse a mulher, dando de ombros. - Na verdade, eu nunca tive uma mãe, de verdade.
- Eu também não - disse ela, com um profundo suspiro. - Parece que tudo o que a minha mãe sabe fazer é me reprovar, é mostrar que, de alguma forma, eu não sou boa o suficiente.
- Ei, você está falando da minha mãe ou o quê?!
- Sério? - a mulher concordou com a cabeça e as duas riram, um riso cansado mas cúmplice. Os cabelos da mulher eram quase loiros, lisos, bonitos. Ela tinha algo de profundamente adorável que ela jamais vira em outra pessoa. Enterrando as mãos nos fundos dos bolsos do casaco azul de seu pai que usava, ela voltou a olhar a baía, gesto que a mulher imitou, pensativa. Depois de permanecerem um tempo em silêncio, a mulher disse:
- Não vale à pena, sabe, você ficar triste assim. Se elas forem realmente iguais, provavelmente ela faz com que você se sinta mal consigo mesma, mas acredite, você é muito melhor do que a pessoa que ela faz com que você pense que é. Não se deixe enganar pelos severos e errôneos julgamentos dela, você tem um brilho no olhar, e parece ser do tipo de menina que não desiste facilmente das coisas. Você tem um grande valor, acredite nisso, acredite em seus amigos que provavelmente lhe dizem isso das mais diversas formas.
Ela respirou fundo, limpando bruscamente as lágrimas. Como uma estranha podia penetrá-la tão rápida e profundamente? De qualquer forma, tudo repentinamente parecia reconfortante: ela estava usando azul, ao invés de preto (e na verdade azul era a sua cor favorita, a cor dos olhos de seu pai), as águas estavam calmas, e havia aquele estranho anjo adorável ao seu lado. Com a voz ainda levemente embargada e com um sorriso, ela disse:
- Bem, eu não posso me queixar tanto assim. Meu pai é maravilhoso. Ele é o tipo de homem que faria qualquer pessoa se sentir melhor, mesmo que a pessoa estivesse se sentindo pior do que um verme. Ele é doce e cuidadoso, divertido...Acho que é impossível não gostar dele. Você tem um pai legal também? - perguntou ela, olhando para a estranha.
- Não...Na verdade, tenho, mas nós nunca fomos próximos, ele me abandonou quando eu era criança.
- Eu sinto muito. Se já foi difícil para mim, que tenho um pai ótimo, eu imagino o quanto não foi difícil para você...
- Não não, na verdade eu consigo viver com isso - ela deu um sorriso alegre. - Aliás, eu conheço um homem parecido com o seu pai, sei o quanto eles ajudam. É o meu namorado.
- Ainda bem - disse ela, sinceramente sorrindo para a estranha, que olhava-a com carinho em seus belos olhos verdes. Por um momento, as duas ficaram apenas trocando um tímido porém sincero sorriso, quase um carinho entre ambas. Então ela lembrou-se que já era hora de ir para casa.
- Foi ótimo conhecê-la, mas tenho que ir para casa. Meu pai está me esperando, vai haver um jantar lá.
- É, eu também tenho que ir logo - disse a estranha. - Também tenho um compromisso para o jantar. Foi ótimo conhecê-la também.
- Obrigada. E boa sorte...Sei lá, com a vida. É "tudo de bom" que se deseja quando se quer desejar algo bom para uma pessoa?
A estranha riu, e ela se tornava ainda mais adorável assim.
- É, pode ser. Boa sorte com a sua mãe também...E com a vida.
Ela concordou com a cabeça, sorrindo, e foi se afastando para casa. Subitamente, sentia-se leve, alegre, como não se sentia há anos. Havia algo de realmente bom naquela doce estranha que conhecera. Chegou em casa e viu seu pai cozinhando empolgadamente, um tanto inseguro, mas ele pareceu mais tranquilo ao ver a filha tão feliz. O jantar era especial porque o pai apresentaria sua madrasta à ela. Apesar de ter ciúmes do seu pai, sentia-se tranquila agora - afinal, sua madrasta dificilmente poderia ser pior do que a sua mãe e, além do mais, seu pai parecia perfeitamente ciente de que cometera um erro casando-se com sua mãe. Depois de ela passar um pouco mais de uma hora lendo em seu quarto, seu pai chamou-a. Ela desceu as escadas e quase caiu para trás quando chegou ao vestíbulo para cumprimentar sua madrasta.
- Filha, está é...
Mas seu pai não teve tempo para continuar. As duas trocaram um enorme sorriso e, sem nenhum resquício de timidez, correrem uma para a outra e se abraçaram fortemente. As duas riram, alegres, enquanto o pai dela olhava-as, estupefato. Quando as duas se soltaram, ele olhava-as, paralisado, ainda com a mão no ar, no meio do gesto que estava fazendo quando elas se abraçaram.
- Ok, eu obviamente perdi alguma coisa por aqui...
As duas riram outra vez, trocando um olhar cúmplice, que só fez com que ele levantasse as sobrancelhas, olhando de uma para a outra, apesar de um sorriso já estar se formando em seu belo rosto.
- Nós nos conhecemos há...deixa eu pensar, uma hora e meia talvez? - perguntou ela, olhando para a "estranha", que inacreditavelmente estava ali agora, ainda com um braço ao redor de sua cintura.
- É, mais ou menos isso - concordou ela. - Mas não sabemos o nome uma da outra, então lhe daremos esse prazer - disse a "estranha", sorrindo para ele.
Ainda surpreso, mas agora sincera e claramente maravilhado, ele começou:
- Bem...Ok. Essa é minha namorada, Ellen, e essa é a minha filha, Allison.
- Muito prazer - disseram as duas, em uníssono, e riram, abraçando-se outra vez.
Eles se dirigiam até a cozinha, onde ele ainda estava cozinhando, e as duas começaram a ajudá-lo, enquanto os três conversavam e se divertiam como se fossem uma família constituída há muito tempo. Ellen comentou que reconheceu o casaco azul da clínica, mas apenas pensou que era igual ao dele, não que fosse o casaco dele. Ele observava-as, completamente maravilhado. Allison não se dava bem com mulher alguma, nem mesmo com as de sua idade, mas ali estava ela, se comportando como a mais nova melhor amiga de infância de Ellen. Num primeiro momento, parecia inexplicável que elas subitamente se entendessem tão bem, mas ele sabia que isso acontecia - raramente, mas acontecia. De qualquer forma, ele sempre percebera, de fato, que elas haviam tido mais ou menos os mesmos problemas e reagido de forma semelhante à eles. Depois de ficar praticamente apenas observando-as conversarem, encantado, ele teve que ir buscar sorvete para elas, que queriam. Ele já estava saindo quando Allison alcançou-o, já entrando no carro.
- Papai, você realmente aprendeu a escolher por quem se apaixonar.
- Já não era sem tempo - disse ele, sorrindo. - Você não sabe o quanto me faz feliz em gostar assim de Ellen. Ela é muito importante para mim
- Espero que realmente seja, porque sinceramente, se você cometer qualquer erro com ela, é comigo que você vai ter sérios problemas - disse ela, séria. - E você sabe o quanto as coisas se tornam difíceis quando eu estou disposta a ficar furiosa com você.
Ele fingiu engolir em seco e, fazendo uma expressão de terror, disse:
- Sim senhora, querida capitã. Quer sorvete de nozes ou morango?
Os dois riram.
- Nozes. E se comporte, é sério.
Ele bateu uma continência para ela e os dois sorriram, enquanto ele se afastava, completamente maravilhado com o jeito que as coisas haviam acontecido. Nem em seus mais ousados sonhos pensou que tudo pudesse ser assim. E Ellen, por alguma estranha lei natural, tornou-se uma mãe para Allison. A sua única e verdadeira mãe, que faria toda a diferença em sua vida.
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