quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Mikrokosmos III

    - Sabe, é estranho aqui - disse ela, enquanto eles estavam abraçados, praticamente deitados na cama.
    - Estranho bom ou estranho ruim? - perguntou ele, olhando-a sorrindo.
    - Estranho bom. Quero dizer, parece que sempre que as coisas parecem aterradoras você consegue fazer com que tudo seja bom outra vez, que ainda haja beleza e esperança. Eu nunca havia conhecido ninguém capaz disso. E além do mais, me sinto bem aqui, como se esse fosse o meu lugar, não sei explicar...
    Ele beijou-a inesperadamente, feliz pelo o que ouvia. Então ele estava conseguindo, ele estava certo quando achava que ela estava em perigo e a trazia à tona outra vez, em segurança. Ele conseguia fazer esses pequenos salvamentos todos os dias e, aos poucos, ela estava se tornando uma pessoa feliz, sem sequer perceber.
    Depois de se beijarem, ele ainda ficou deitado por cima dela, e enquanto ela ajeitava uma mecha do cabelo dele que caía, ela falou, olhando em seus olhos cinzentos:
    - Mas eu ainda acredito que o mundo seja um lugar ruim e que estamos muito melhor, protegidos aqui. Eu sei que você acredita que o mundo não é um lugar tão terrível, mas eu não consigo ter boas impressões do que vi lá fora.
    - Mas nós estamos seguros aqui agora, não se preocupe - disse ele, grave, beijando-a novamente, com mais ardor dessa vez, como se através disso pudesse transmitir-lhe segurança. E conseguia. De fato, via-se envelhecendo ali, ao lado dela, sem precisar de mais nada no mundo. Disse isso para ela, quando ela repousava nua em seus braços, fatigada. Ela perguntou-lhe, séria:
    - E a divulgação do seu trabalho, como ficaria? Você sabe que precisa disso.
    - Não, não preciso - disse ele, sério. - O importante do meu trabalho é fazê-lo, e isso eu tenho feito sempre. De qualquer forma, eu estou me transformando tão rapidamente numa espécie de Michael Bolton que eu acredito que ninguém mais admiraria meu trabalho - ela gargalhou sinceramente, uma risada tão alegre que ele própio não pode deixar de rir, mesmo tentando xingá-la com fingida severidade. - Não ria! Você é a culpada do meu recente rompante de romantismos!
    - Michael Bolton não é tão ruim assim - disse ela, ainda rindo, divertida, num tom que quase contradizia suas palavras. Fingindo-se de furioso, ele começou a fazer-lhe cócegas e logo estavam entrelaçados outra vez. E, contra todas as probabilidades, felizes.

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