segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sis

Como se zombasse dos sentimentos dela, fazia sol e um calor infernal naquela tarde de janeiro, 6 de janeiro. Muitas pessoas haviam comparecido ao velório, muita gente que ela nem imaginava que sua irmã conhecia. Mas ninguém sentia-se como ela, até porque, ninguém a conhecera e fora tão profundamente ligada à ela, ninguém fora sua irmã. Não fazia nem 24 horas que Bonnie havia morrido, mas ela já sentia imensamente a sua falta.
Desde muito pequenas, elas sempre haviam sido profundamente ligadas. Eram distanciadas por cinco anos de diferença, mas estes nunca impediram-nas de serem melhores amigas, além de irmãs - e talvez justamente por isso Bonnie havia amadurecido mais rápido do que a maioria dos da sua idade. Bonnie sempre havia idolatrado-a profundamente, com uma devoção e um amor dogmáticos. Mas enquanto ela revoltava-se facilmente, Bonnie entristecia-se. E isso acabou sendo fatal na sobrevivência aos traumas.
Fora difícil crescerem com uma mãe que lhes reprovava repetidamente e sem razões, principalmente para Bonnie, pois ela sempre fora uma boa criança, boa aluna, do tipo que lhe causaria repugnância se não fosse a sua irmãzinha, a única que lhe compreendia inteiramente. Bonnie tentava não desapontar a ninguém o tempo todo, enquanto ela facilmente se revoltava com as expectativas, revoltava-se principalmente com as tolas limitações que lhes eram impostas. Eram profundamente diferentes e profundamente iguais em diversos níveis, e as diferenças jamais sequer ameaçaram afastá-las. Bonnie havia sido sempre tão profunda e sinceramente triste que ela tinha vontade de protegê-la, de não deixar que ninguém a magoasse. Mas ela não conseguia sequer proteger a si mesma.
O cotidiano ao lado de Bonnie tornava-se completamente agradável, o que era surpreendente, já que a vida de ambas nunca fora fácil, e ela sempre tivera muitas mágoas. Coisas simples como fazer um lanche, olhar um filme, lavar a louça ou ir ao mercado podiam se tornar incrivelmente divertidas com Bonnie, afinal, apesar de sua tristeza, Bonnie conservava-se sempre gracejando e com uma pureza quase infantil, e sempre se mostrava um tanto alegre ao lado dela. Estranhamente, quando soubera que Bonnie morrera, não foi reler as belas cartas que esta havia lhe escrito ou olhar as inúmeras fotos que possuíam juntas, mas permanecera a noite inteira em silêncio, ouvindo a música "delas", lembrando dos momentos mais banais mas que, no fim, acabaram se mostrando extremamente significativos. Lembrar de ouvirem músicas compartilhando os fones de ouvido, lembrar das besteiras que falavam, dos passeios que faziam e dos momentos em silêncio profundamente agradável era uma forma de manter Bonnie por perto, de ao menos saber que isso não se perderia. Há anos atrás, ela havia tatuado o nome de Bonnie no braço esquerdo, ato que comovera Bonnie profundamente. Nada havia que fosse incomunicável entre elas; de fato, sequer precisavam de palavras para desabafarem uma com a outra.
Talvez o fato mais importante, e que permitia que a ligação fosse extremamente profunda, era que nada exigiam uma da outra, principalmente que fossem felizes. Ela não exigia que Bonnie estivesse sorrindo sempre e tampouco Bonnie exigia isso dela, respeitavam e compartilhavam a profunda depressão que sofriam. E no mais, mesmo que a vida de uma delas viesse a se tornar deplorável aos olhos de todos, elas ainda se apoiariam e se amariam da mesma forma, sem sequer hesitar. 
O problema era que Bonnie não era tão forte, não era tão determinada o quanto ela. Bonnie era mais facilmente atingida e magoada, e não havia o que se pudesse fazer. Como um anjo, ela caíra do 23º andar do prédio onde moravam. Uma carta havia sido deixada ali, e seu celular tocava repetidamente Hello, do Evanescence. Ela ainda não havia conseguido ler a carta, mas agora que todos já haviam ido embora, ela sentou-se sobre o túmulo de Bonnie e, finalmente à sós com sua irmãzinha, foi ler as últimas palavras desta.

"Sis:

Eu sinto muito, mas não posso continuar. A dor psicólogica é terrivelmente incessante e não há possível alívio. Sempre tentei fugir de mim mesma para tentar ser feliz e forte, mas nem isso adiantou, nada nunca adiantou. E não sou uma pessoa que tente até o fim algo que provavelmente jamais dará certo. Desisto, conscientemente da felicidade e da força, mas sei que meu inconsciente irá me torturar até meu último segundo com essa busca risível.
Minha angústia me acompanha diariamente e não faço nada por medo de machucar quem quer que seja seguindo meus interesses, meus sonhos, meus profundos desejos. Cada mínimo gesto que faço antes passa por uma avaliação do que isso pode significar aos que me rodeiam, aos que me amam, e se isso pode ou não machucá-los – e essa avaliação tem me matado há tempos. Desde que percebi que a morte é real e inevitável, tenho cuidado do meu próprio e estranho jeito de não magoar as pessoas, mas tenho me magoado tanto com isso que não sei como suportei esses quase cinco anos sem suicidar-me - provavelmente por ter você ao meu lado. Porque de alguma forma, você sempre foi a melhor coisa em meu mundo, e eu sempre te admirei tão profundamente que não poderia jamais explicar-lhe o quanto você significa para mim. Você esteve ao meu lado, entendendo o que eu jamais confessaria à qualquer outra pessoa no mundo, por mais íntima que fosse. Teve paciência e cuidado com minhas fraquezas, minhas banalidades, minhas futilidades e imperfeições (que são muitas, eu sei bem). 
Você sabe, melhor do que ninguém, que eu vivi 17 anos fingindo ser uma pessoa normal e saudável, mas é inegável que tenho distúrbios, e eles tem me destruído aos poucos, de uma forma sutil e subjetiva, assim pareço estar bem, enquanto me destruo e sufoco internamente. Faço coisas que não quero, me submeto à todas as vontades de meus familiares, simplesmente para não desapontá-los. E sei que, se não é isso que está me matando, é isso que me tortura, todos os dias, o tempo todo.E honestamente, viver dessa forma não é digno e tampouco certo.
Só continuei vivendo até agora para não causar dor aos que talvez se importem comigo. Mas cada dia, cada segundo tem sido terrível, não posso mais negar, não para você. E infelizmente, não posso permanecer ao seu lado. Eu tentei ao máximo, mas perdoe-me, não sou forte o suficiente para continuar aqui, suportando o nosso passado, suportando o que poderá vir.
De qualquer forma, tenha certeza de que sempre estarei ao seu lado. Não existe e jamais existirá alguém que te ame mais do que eu. Você será, eternamente, a minha irmãzinha, e nem mesmo a morte poderá acabar com isso. Se sentir a minha falta, me chame, ou melhor, simplesmente feche os olhos: eu prometo estar sempre ao seu lado. Nada me faria abandonar você, e por mais que pareça, isso não é um adeus. Eu sempre estarei por perto.
Espero que você possa conhecer Los Angeles um dia e tenho certeza que lá você será a vocalista de uma grande banda de heavy metal. Seattle não é tão longe assim de Los Angeles, e nossos sonhos também não. Continue olhando as balsas de Seattle e se lembrando de mim, eu sempre estarei por lá. E sempre te amarei, onde quer que nós duas estejamos.
"People die, but real love is forever."
Com todo o amor do mundo, até logo.

Bonnie. " 

Um comentário:

ユシロ ☆ disse...

Luv u sis <3