quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mikrokosmos V

    Fazia tempo que não ventava daquela forma, mas aquela noite parecia estar especialmente agitada, e ele simplesmente não conseguia se concentrar em absolutamente nada. O mar só poderia estar extremamente agitado também, e ele resolveu ir vê-lo, até porque, há dias não fazia isso, por falta de tempo.
    Apenas o fato de ter tomado essa decisão e estar caminhando em direção ao mar já tranquilizava-o. Havia tido dias difíceis, mas já fazia algum tempo que sabia lidar com isso. Ao menos, a praia estava relativamente clara, e o vento era frio. Como ele supunha, o mar estava revolto. Deixou para parar e observá-lo quando houvesse chegado à sua pedra favorita, o seu lugar naquela praia geralmente deserta, mas não naquela noite. Com um sobressalto, ele viu, não muito distante, uma pessoa na água. Uma mulher, com os longos cabelos voando com o violento vento - e mesmo assim ela estava dentro do mar, onde a água batia acima de sua cintura. Era difícil saber se ela estava ali por dor ou alegria, o barulho do mar e do vento, unidos ao fato de ela estar de costas, não ajudavam-lhe nem um pouco a saber sobre seu estado.
    De qualquer forma, ela correria perigo, se já não estava correndo, ficando dentro do oceano numa noite como aquela. Ele entrou na água, que estava fria e agitada com mais força do que parecia, tentando alcançá-la, tendo como único guia o vislumbre de seus longos cabelos voando e o reflexo de seu vestido claro. Quando se aproximou o suficiente, apesar dos barulhos incessantes da natureza, ele pôde ouvir claramente o seu choro. Tentou avançar mais rapidamente e, sem se preocupar se assustaria-a ou não, ele pegou em seu braço, fazendo-a olhar para ele. Subitamente, estava diante dos mais belos olhos castanhos que já tinha visto - e que sonhara, debilmente, em reencontrar algum dia. Mal podia acreditar que ela estava ali, mas não haviam dúvidas: eram os mesmos traços finos, o mesmo rosto redondo, os lábios perfeitamente desenhados, o mesmo olhar. Ela própia não parecia estar acreditando no que via.     Olhava-o entre espantada e maravilhada, estupefata. Na verdade, aquele estranho encontro parecia a ambos um fruto de mais um de seus frequentes e fantasiosos devaneios. Sem se importarem com a veracidade do que acontecia, abraçaram-se sem sequer sair do agitado oceano, reflexo deles. Abraçaram-se fortemente, não tímida ou educadamente como haviam feito todas as outras vezes em que se encontraram. Depois de passarem muito tempo assim, finalmente olharam-se nos olhos. E as coisas mudaram.

Nenhum comentário: