As ondas atingiam regularmente os pés de Hannele, que repousavam sobre a areia. Ela abraçava os joelhos e seu olhar se perdia na imensidão do mar. A angústia era praticamente sufocante, quando alguém tocou levemente seu ombro, com uma leveza que era completamente peculiar à uma certa pessoa. Já sorrindo, mesmo que com lágrimas no rosto, Hannele virou-se e sorriu para Maarika, que sentou-se ao seu lado, sem conseguir retribuir-lhe o sorriso, apreensiva. Esta afastou-lhe os cabelos do rosto e olhou-a interrogativamente, mas em seus olhos verdes a resposta parecia já ser conhecida previamente.
- Estou feliz que você tenha aparecido, Maarika. Eu tenho sentido a sua falta.
- Eu poderia jurar que você estivesse bem agora - sussurrou Maarika, gravemente. Hannele olhou-a. Não poderia enganá-la nem que quisesse, ela era a mãe que Hannele nunca tivera.
- Eu estou completamente perdida outra vez - sussurrou Hannele mais para si própia do que para Maarika. As palavras saíram num jato, como se fosse doloroso admitir essa condição - e de fato era. Hannele suspirou profundamente, enquanto Maarika puxava-a para si. Havia um conforto incomparável em seu colo, em aconchegar-se em seus belos e longos vestidos, sentir seu cheiro maravilhos e suas mãos delicadas fazendo-lhe carinho pelos longos cabelos lisos. Sem perceber, começou a chorar baixinho, abraçando-se forte à Maarika.
- Eu não quero perder isso tudo - sussurrou, parecendo uma menininha apavaroda. - Pelo amor de Deus, eu não quero ir embora de Kitee, não quero perder a vida que eu reconquistei! Eu não poderia suportar isso outra vez...
- E você sabe perfeitamente bem que não precisa suportar isso e não vai - sussurrou Maarika, doce porém com firmeza. Hannele olhou-a profundamente nos olhos. Seus olhos castanhos transpareciam uma dor, uma angústia tão profunda que Maarika puxou-a contra si, abraçando-a fortemente. - Você não precisa ter medo. Todos nós estaremos aqui com você pelo resto de seus dias, e você sabe bem que pode permanecer aqui eternamente - ela limpou as lágrimas do rosto de Hannele, que gentilmente desvencilhou-se dela e voltou a sentar-se ao seu lado. Limpou as própias lágrimas com uma certa rudez que lembrava sua descendência viking e olhou duramente para o mar, como se decidisse alguma coisa. Maarika não ficou olhando-a, sabia que isso a faria se sentir mal, mas podia ouvir sua respiração ofegante e ansiosa aos poucos se acalmar.
- Eu vou lutar incansavelmente para permanecer - disse Hannele, mais para si mesma do que para Maarika. - Tivemos uma das mais belas noites de neve ontem, e nada se compara ao que eu e Mikko compartilhamos sempre...
- Fiquei sabendo que vocês se casaram - sorriu Maarika.
Hannele finalmente conseguiu sorrir, estendendo sua mão esquerda para as delicadas mãos de Maarika. Esta sorriu, beijando-lhe carinhosamente a mão. Hannele encabulou-se mas ficou feliz com o carinho. Depois, recuperando a seriedade, disse à Maarika:
- Acho que é justamente por isso que estou tão assustada. Mikko é muito mais do que eu poderia jamais desejar, e no entanto estamos juntos e tudo é simplesmente...perfeito demais, entende? Eu não mereço uma felicidade tão gloriosa assim. Quero dizer, eu tenho tanto a aprender e construir ainda...
- Você aprenderá e crescerá com a ajuda e o amor de Mikko - disse Maarika, sorrindo amorosamente. - Você pode ter certeza, querida, que ele estará ao seu lado e lhe ajudará nos momentos mais sombrios. Ele continuará agindo da mesma forma que agiu até agora.
- É, eu acho que sim - disse Hannele, severamente preocupada. - Por que você se preocupa comigo? - perguntou, de súbito, olhando-a. Maarika ficou estupefata por um instante, sem saber o que dizer. Hannele prosseguiu:
- Você me procurou quando eu sequer a conhecia para me ajudar, sempre tentou de todas as formas estar ao meu lado, me proteger...por que? Você sabe que eu te amo e isso está muito longe de ser uma reclamação mas, honestamente, eu não compreendo de onde isso tudo começou...
- Eu tampouco saberia explicar, pequena - disse Maarika, pensativa. - Você parecia tão profundamente perdida na primeira vez em que a vi que acredito que você tenha despertado, não sei, algum instinto maternal ou algo parecido em mim. Eu sei, você me evitava no começo. Estava sempre com Mikko e os outros caras, sempre fingindo que estava bem. Mas eu sempre vi algo em seus olhos que me fazia tentar salvá-la. E sabia também, de alguma forma, que você poderia ser a salvação de Mikko, apesar de ter sido, praticamente, a perdição de Aleksanteri - as duas riram e Hannele negou com a cabeça. - Ah, pelo amor de Deus Hannele, eu já conheci tantos homens apaixonados por você que seria impossível não ver que um amigo meu está apaixonado por você! Acho que isso não é segredo para você, também.
- Não sei - disse Hannele, dando de ombros, fingindo dar menos importância ao assunto do que realmente dava, fingimento este que não enganava nem um pouco Maarika, mas esta permaneceu em silêncio. - O que importa é que eu queria pedir-lhe perdão por tê-la evitado, por ter fugido da sua ajuda. Não sei até hoje o que me manteve afastada de você, mas acredite, hoje sei reconhecer o valor inestimável que você tem para mim, e eu te amo - disse ela, olhando com um sorriso para Maarika. Seus olhos escuros brilhavam, como que confirmando suas últimas palavras.
- Ah, minha menininha, eu te amo tanto! - disse Maarika, puxando-a para si outra vez e fazendo-lhe sorrir alegremente. As duas permaneceram então em silêncio por horas, olhando o mar levemente revolto, que atingia-lhes raramente. Hannele sentia-se mais segura agora, pois Maarika sempre estaria ali, sempre esteve esperando por ela, sempre havia cuidado dela, mesmo que à distância. Maarika nunca teve dúvidas de que Hannele conseguiria permanecer, ou melhor, até mesmo que Kitee era o seu lugar no mundo. No silêncio, as certezas se confirmaram, até que ao anoitecer Maarika pegou-a pela mão, para que caminhassem como quando ela era uma menininha obscura mas tão adorável que Maarika amaria-a mesmo que se transformasse numa jovem deplorável. Mas esse não era o caso - e Maarika cuidaria dia após dia da sua eternamente pequena Hannele, que um dia seria tão bela o quanto ela.
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