sábado, 29 de janeiro de 2011

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"E agora que estou aqui, despida diante de sua alma, percebo que as coisas já não possuem dimensões ou sentidos previamente determinados, tudo pode ser mudado por uma simples inspiração. Entre nossos olhos não existem limites e me perco em sua vastidão cinzenta e brilhante; eis que adentro seus oceanos sem sequer perceber, assim como nossas águas se chocam e misturam-se naturalmente. Mal ouso respirar, sei que qualquer movimento em falso pode ser um erro ou o maior acerto que poderíamos cometer, de qualquer forma, cada inspiração é fatal.
É estranho e belo existirmos assim, mesmo que seja apenas por esses raros momentos em nossas vidas – quem sabe se essa não será a única vez? E é justamente nessa possibilidade que reside toda a beleza e a intensidade de estarmos assim, tão desarmadamente expostos um ao outro.
De alguma forma, encontramo-nos no escuro através de um jogo de palavras, e agora nossos olhos confirmam isso tudo, como uma jura secreta nessa penumbra intransponível. Por um momento, decorei cada feição, cada traço teu, mas agora que me perdi em teus olhos já não posso desviar ou recuar. Em algum momento, algo partiu-se, rompeu-se irrecuperavelmente e, ainda bem, não tivemos nem tempo de perceber o que estava acontencendo, pois a falta de dimensões é assustadora e gigantesca. Teus olhos, tua alma se aproxima de súbito, tua respiração densa – teus lábios. E nada mais existe."

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