sábado, 16 de abril de 2011

Mikrokosmos XIII

    - Ok, então vamos tentar pensar com clareza por um momento - sussurrou ele, puxando-a para si e em seguida limpando as próprias lágrimas com uma só mão. Deu um profundo suspiro e prosseguiu. - Nós correríamos tanto risco desistindo quanto persistindo, certo?
    Ela assentiu com a cabeça, olhando-o muito séria e apreensiva, e havia algo de adoravelmente infantil em sua expressão, aliás, na expressão de ambos. Pareciam crianças que subitamente haviam descoberto o valor do afeto.
    - Certo, certo... Então, é melhor arriscarmos pelo que pode trazer mais felicidade, mesmo que isso possa trazer mais dor, certo?
    Novamente ela assentiu em silêncio, e uma lágrima escorreu pelo rosto já manchado. Estavam tão aconchegados, tão abraçados um ao outro que era difícil distinguir onde começava um e terminava o outro. Mesmo que a única luz fosse a claridade da lua entrando pela janela, ambos podiam ver os olhos brilhantes e mais do que isso, subitamente viam muito mais do que quaisquer outras pessoas no mundo. Haviam encontrado um pássaro raríssimo, que talvez não fosse encontrado há, literalmente, séculos, por outros seres humanos. Eles respiravam mal, os corações martelavam dolorosamente, e um podia sentir o coração do outro acelerado. Apesar da profundidade do sexo, apesar das palavras e dos olhares trocados, isso parecia mais íntimo, parecia expô-los mais um ao outro do que qualquer outra coisa, e nenhum saberia explicar porque se sentiam assim. Ela não conseguia dizer nada, ele discursava, interrompendo-se o tempo todo.
    - Certo... Vamos arriscar então. Ok. Certo - ele suspirou, e logo ficou vermelho por ter suspirado. Aquela proximidade, aquela intensidade não era perigosa demais? E ao mesmo tempo, não era maravilhoso demais para ser verdade ter alguém tão perto e ser tão confortável, tão gostoso? Subitamente aquele quarto havia se transformado num lugar atemporal, aquela madrugada, aquela penumbra e os olhos, os medos, os futuros eram tudo que existia. Naquele exato instante, não haveria vida se não houvesse um futuro juntos, não era concebível que tivessem de viver um dia sem aquela imensidão que experimentavam juntos, aquele oceano onde só eles sabiam e podiam nadar e apreciar. Eles temiam fechar os olhos, fazer qualquer movimento, dizer qualquer coisa que quebrasse aquele encanto. Mas sabiam que, em algum momento, o sol subiria e talvez tudo desaparecesse - e eles não podiam, definitivamente não podiam deixar que isso acontecesse. Depois de um longo momento onde ambos não conseguiam sequer pensar, de tão assustados e maravilhados que estavam com tudo, ele começou:
    - Certo, nós precisamos nos acalmar - disse ele, sentindo-se ridículo. Por que ficava repetindo "Certo"? Por que se sentia tão nervoso? E por que ela não conseguia dizer sequer uma palavra, se sua mente era um turbilhão de medos e expectativas? Todos esses detalhes que talvez parecessem pequenos aos outros, eram de máxima importância para ambos, afinal, eles sabiam o quanto cada pequeno detalhe significa numa obra grandiosa. E ambos, com temor e profunda alegria, sentiam que havia algo realmente grandioso nascendo ali, naquela noite, que sempre fermentara e que finalmente iria transbordar infinitamente - mas tal ideia era tão estupenda que eles não conseguiam sequer se permitir formular este pensamento. Choravam, inseguros, assustados, quase como se estivessem diante de suas próprias vidas - e, de fato, estavam.
    Quando, depois do milésimo silêncio inquieto, eles sentiram que não aguentariam mais sequer um segundo, ele começou a falar:
    - Bem, por enquanto, nós não precisamos nos preocupar...
    Ela assentiu apressadamente com a cabeça, mordendo o lábio inferior. Com inesperada ternura, beijou-lhe o rosto e afundou-se no pescoço dele, sentindo sua vida pulsar sob seus lábios. Sentí-lo ali, tão verdadeiro e real era uma felicidade maior do que ela podia suportar, maior do que qualquer ser humano poderia. Era o tipo de beleza que dói, e ela sequer percebeu que estava chorando outra vez (o que ela consideraria ridículo sob quaisquer outras situações, mas naquele instante, isso era mais do que natural). Ninguém jamais entenderia o drama, a importância, a veracidade daquele momento entre eles - talvez nem eles próprios. Mas podiam sentir, e para isso não precisavam de palavras ou qualquer tipo de tradução.
    - Com o tempo, nós vamos casar... - começou ele outra vez, acariciando os cabelos dela. Sentir aqueles cabelos lisos e longos sob seus dedos, aqueles fios macios que escapavam por entre seus dedos era uma sensação inexplicavelmente maravilhosa. Era ela que estava ali. - Sim, e então, podemos ter um casamento élfico... Seus cabelos terão crescido ainda mais, e o vídeo de nosso casamento nos lembrará de "Born of Hope", só que nós estaremos ainda mais felizes do que Arathorn e Gilraen, pois nós esperamos por isso a vida inteira. Haverão brilhantes em seus cabelos e tocarão músicas folk, que dançaremos todos juntos e usaremos roupas adequadas a um casamento élfico, e nossas alianças...
    - Terão nossos nomes gravados em élfico, obviamente...
    Ele se surpreendeu. A voz dela não passava de um sussurro, mas podia-se sentir a certeza de quem sabe o que quer e porque quer, a firmeza de quem tem a mais absoluta certeza de que vai realizar o que está dizendo. Ela não disse mais nada, mas o simples tom de sua voz deu-lhe coragem para seguir em frente, para acreditar que tudo aquilo era verdadeiro, por mais que eles sempre se sentissem como num sonho que pode acabar a qualquer instante.
    - Acredito que teremos apenas um filho, e apesar de que iremos mimá-lo muito, também iremos ensiná-lo a ter valores sólidos e profundos, e acredito que criaremos uma espécie de paraíso para sua infância e...
    Agora havia uma calma, uma certeza límpida e profunda que fez com que ele continuasse planejando até que sua voz ficasse ainda mais rouca do que o natural e o dia amanhecesse, trazendo-lhes o sono ao qual eles se entregaram sem resistência. Ela não precisou concordar com palavras, ele sabia que ela também falava através de suas próprias palavras. Dormiram profundamente um sono sem sonhos - e sem se soltarem sequer um milímetro.

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