Não era nem seis da manhã ainda,
mas era bom acordar cedo assim, agora era bom. Ele se acordara e chamara a
mulher, que acordou sem hesitar, mesmo odiando acordar cedo. Arrumaram as
coisas, o filho ainda dormindo no colo dela, puseram-se a andar em direção à
praia, que ficava no fim da rua onde moravam. Gostavam muito de vir ali àquela
hora; ninguém mais vinha, o silêncio e a paz eram inacreditáveis, quase como se
a cidade inteira estivesse no mais profundo sono. Ele observava o filho
dormindo, o rostinho arrendondado repousando no ombro da mãe, igualzinho ao
menino de suas fotos da infância, a não ser pelas sardas que herdara da mãe.
Passou um braço pelos ombros dela que não estranhou, afinal, depois de tanto
tempo juntos ela já até gostava de ele ser carinhoso assim. Os cabelos dela eram
algo que ele jamais iria esquecer, o toque frágil daqueles fios lisos e
fininhos que lhe davam um ar de menina, mesmo que os dois já não fossem tão
jovens assim.
Como sempre, o barulho do mar
acordou o menino, que já abriu os olhos alegre, descendo do colo da mãe e
correndo para a água. Ela correu atrás dele para brincarem na água como sempre
faziam, esqueciam-se de qualquer outra coisa por horas, mas hoje ele não queria
brincar (como acontecia às vezes), queria apenas olhá-los brincando. Sentou-se
na areia, acomodando suas coisas por perto e finalmente se perdendo na
contemplação não só do mar, mas de tudo aquilo que iria perder. Ali no mar ela
era livre; ria, brincava e se soltava como em nenhuma outra circunstância. Ele
a observava caminhar com o filho nos ombros, pulando ondas, fazendo o menino
rir e a beijar na bochecha com aquele carinho que só os filhos queridos sabem
ter. Ela era quinze anos mais nova, mas nenhum dos dois se lembrava disso
nunca. Ele a conhecera aos poucos, aproximando-se devagar, percebendo aos poucos
seus contornos, seus traços finos e evanescentes. Depois de ter trabalhado e
estudado tanto, a única coisa que ele não havia conseguido era formar uma
família, ter uma amiga que também fosse seu amor, como ele sempre quis que
fosse. Então, despropositadamente, tornou-se amigo dela, descobrindo aos poucos
que talvez seus projetos não fossem assim tão tolos. Ela queria crescer, ser
melhor, e se entregar àquela vida que ele queria fazia parte do crescimento
dela, portanto se casaram, muito menos pelas razões racionais do que eles
gostariam.
Os anos se passaram muito rápido.
Num momento, ela tinha dezessete anos e se encantava pelas teorias dele, no
instante seguinte estavam ali, há anos juntos, e nesses anos tendo acumulado
tanta experiência em lidar, em viver um com o outro, que já não precisavam de
muita coisa para se entender. Dia após dia, através de gestos simples e
madrugadas intermináveis de conversa, eles se apreenderam, tiveram um menino
sem planejar, exatamente como deveria ser. “Estou grávida” – e eles
simplesmente já sabiam como agir, acima do medo e do turbilhão de expectativas
que essa ideia lhes causava. Era simples, estariam juntos criando um filho
deles próprios, parecia assustador mas no fundo uma paz sempre reinava. Tendo
um ao outro, haviam passado por inúmeras
situações difíceis e as controlado perfeitamente, então por que não seria
assim? Mas sabiam que, em algum momento, isso acabaria. O inevitável sempre
chegava, e chegou cedo demais para eles.
Sem poder evitar um choro
silencioso, ele agradecia mentalmente não só por eles não poderem vê-lo
chorando, mas também por tê-los, por ter vivido tudo o que vivera. Nunca havia
pensando na morte até ela se apresentar como uma questão de tempo – mas pouco tempo. Não queria dizer para eles,
não queria se tratar se sabia que de nada adiantaria e só assustaria aqueles
pedaços dele que ele teria que deixar para trás. Queria morrer ali na praia
mesmo, ou na cama, dormindo abraçado nos dois como às vezes faziam, a luz
matinal invadindo o quarto tão íntimo, tão próprio deles. Seria fácil e limpo,
e ele acreditava profundamente que tudo daria certo sem ele por perto também.
- Vem para a água, papai! –
gritou o menino, correndo alegre e encharcado para pular no colo do pai. – ‘Tá gelaaaaaaaaada!
O menino tremeu, rindo, enroscando-se
na toalha que o pai lhe estendia. Por um momento, ele ficou olhando aquele
menino tão simples, tão dele, e quis protegê-lo até mesmo da água fria, de
qualquer dano que pudesse lhe ocorrer. Beijou o filho, oferecendo-lhe colo e
sanduíches, tentando acreditar que ainda o veria crescer trocando a guitarra de
brincadeira por uma verdade, deixando o cabelo crescer, lendo os livros da
estante dos pais, como se o tempo dele fosse o mesmo que o dos outros. Sua
mulher vinha saindo da água satisfeita, como sempre saía de um banho de mar.
Fechou os olhos, guardando na retina a imagem dela no mar e o som do filho
contando-lhe os hábitos alimentares dos cavalos marinhos. Ele havia conquistado
inúmeras coisas, mas era só isso que queria levar consigo. Só.
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