sábado, 15 de outubro de 2011

Conchas


Não era nem seis da manhã ainda, mas era bom acordar cedo assim, agora era bom. Ele se acordara e chamara a mulher, que acordou sem hesitar, mesmo odiando acordar cedo. Arrumaram as coisas, o filho ainda dormindo no colo dela, puseram-se a andar em direção à praia, que ficava no fim da rua onde moravam. Gostavam muito de vir ali àquela hora; ninguém mais vinha, o silêncio e a paz eram inacreditáveis, quase como se a cidade inteira estivesse no mais profundo sono. Ele observava o filho dormindo, o rostinho arrendondado repousando no ombro da mãe, igualzinho ao menino de suas fotos da infância, a não ser pelas sardas que herdara da mãe. Passou um braço pelos ombros dela que não estranhou, afinal, depois de tanto tempo juntos ela já até gostava de ele ser carinhoso assim. Os cabelos dela eram algo que ele jamais iria esquecer, o toque frágil daqueles fios lisos e fininhos que lhe davam um ar de menina, mesmo que os dois já não fossem tão jovens assim.
Como sempre, o barulho do mar acordou o menino, que já abriu os olhos alegre, descendo do colo da mãe e correndo para a água. Ela correu atrás dele para brincarem na água como sempre faziam, esqueciam-se de qualquer outra coisa por horas, mas hoje ele não queria brincar (como acontecia às vezes), queria apenas olhá-los brincando. Sentou-se na areia, acomodando suas coisas por perto e finalmente se perdendo na contemplação não só do mar, mas de tudo aquilo que iria perder. Ali no mar ela era livre; ria, brincava e se soltava como em nenhuma outra circunstância. Ele a observava caminhar com o filho nos ombros, pulando ondas, fazendo o menino rir e a beijar na bochecha com aquele carinho que só os filhos queridos sabem ter. Ela era quinze anos mais nova, mas nenhum dos dois se lembrava disso nunca. Ele a conhecera aos poucos, aproximando-se devagar, percebendo aos poucos seus contornos, seus traços finos e evanescentes. Depois de ter trabalhado e estudado tanto, a única coisa que ele não havia conseguido era formar uma família, ter uma amiga que também fosse seu amor, como ele sempre quis que fosse. Então, despropositadamente, tornou-se amigo dela, descobrindo aos poucos que talvez seus projetos não fossem assim tão tolos. Ela queria crescer, ser melhor, e se entregar àquela vida que ele queria fazia parte do crescimento dela, portanto se casaram, muito menos pelas razões racionais do que eles gostariam.
Os anos se passaram muito rápido. Num momento, ela tinha dezessete anos e se encantava pelas teorias dele, no instante seguinte estavam ali, há anos juntos, e nesses anos tendo acumulado tanta experiência em lidar, em viver um com o outro, que já não precisavam de muita coisa para se entender. Dia após dia, através de gestos simples e madrugadas intermináveis de conversa, eles se apreenderam, tiveram um menino sem planejar, exatamente como deveria ser. “Estou grávida” – e eles simplesmente já sabiam como agir, acima do medo e do turbilhão de expectativas que essa ideia lhes causava. Era simples, estariam juntos criando um filho deles próprios, parecia assustador mas no fundo uma paz sempre reinava. Tendo um ao outro,  haviam passado por inúmeras situações difíceis e as controlado perfeitamente, então por que não seria assim? Mas sabiam que, em algum momento, isso acabaria. O inevitável sempre chegava, e chegou cedo demais para eles.
Sem poder evitar um choro silencioso, ele agradecia mentalmente não só por eles não poderem vê-lo chorando, mas também por tê-los, por ter vivido tudo o que vivera. Nunca havia pensando na morte até ela se apresentar como uma questão de tempo – mas pouco tempo. Não queria dizer para eles, não queria se tratar se sabia que de nada adiantaria e só assustaria aqueles pedaços dele que ele teria que deixar para trás. Queria morrer ali na praia mesmo, ou na cama, dormindo abraçado nos dois como às vezes faziam, a luz matinal invadindo o quarto tão íntimo, tão próprio deles. Seria fácil e limpo, e ele acreditava profundamente que tudo daria certo sem ele por perto também.
- Vem para a água, papai! – gritou o menino, correndo alegre e encharcado para pular no colo do pai. – ‘Tá gelaaaaaaaaada!
O menino tremeu, rindo, enroscando-se na toalha que o pai lhe estendia. Por um momento, ele ficou olhando aquele menino tão simples, tão dele, e quis protegê-lo até mesmo da água fria, de qualquer dano que pudesse lhe ocorrer. Beijou o filho, oferecendo-lhe colo e sanduíches, tentando acreditar que ainda o veria crescer trocando a guitarra de brincadeira por uma verdade, deixando o cabelo crescer, lendo os livros da estante dos pais, como se o tempo dele fosse o mesmo que o dos outros. Sua mulher vinha saindo da água satisfeita, como sempre saía de um banho de mar. Fechou os olhos, guardando na retina a imagem dela no mar e o som do filho contando-lhe os hábitos alimentares dos cavalos marinhos. Ele havia conquistado inúmeras coisas, mas era só isso que queria levar consigo. Só.

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