sábado, 5 de novembro de 2011

Mikrokosmos XXX

- Está tudo bem?
- Uhum - concordou ela, virando-se para olhá-lo. Por mais triste que estivesse, era animador e reconfortante ouvir passos no quarto e saber que eram dele, virar-se e se deparar com aquele rosto tão querido, tão dela. Ele se deitou e ela se aninhou nele, ficando muito calada, como há tempos não fazia. Ele percebeu a mudança e, entre surpreso e alegre, acariciou-lhe os cabelos, pensativo. 
Depois de quase dois anos morando juntos, ele sabia bem ler cada gesto dela, e podia perceber perfeitamente bem que algo estava mudando. Depois de muito tempo, ela estava finalmente voltando ao seu natural silêncio, recolhendo-se mais, falando bem menos e o olhando mais, sem medo de se perder naquela proximidade. Em silêncio, ele a olhou demoradamente, como se pudesse confirmar suas impressões, como se pudesse pedir-lhe para permanecer ali, completamente protegida com ele, até ser inevitável que tudo desaparecesse. Ela o olhava de tal forma que ele se sentiu, outra vez, como o menino que um dia fora, inundado em sua própria inocência, perdido na vastidão de tudo que desejara. 
Ela o beijou, sem pudor, surpreendendo-o, fazendo com que ele se envolvesse exatamente no que ele queria. Por que, repentinamente, já não era errado se perderem dessa forma? E por que, tão subitamente, eram casados no sentido mais profundo da palavra, no sentido que nem era a verdadeira intenção mas que, por isso mesmo, tornou-se a verdadeira? Mas eles não podiam e não queriam perder tempo pensando nisso tudo, tentando descobrir o que significava cada átomo - e nem era disso que precisavam. O que realmente precisavam era entregarem-se, era aprenderem a confiar no que ninguém podia convencê-los, a não ser eles próprios. Mas não, no fundo sabiam que estavam certos, e nada disso importava.
O oceano, a neve, silêncio. Talvez a beleza fosse a inexistência de tudo o que criaram. E talvez, apenas talvez, estivessem verdadeiramente ligados: e se isso fosse verdade, tudo teria valido a pena. Tudo.

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