Mesmo que ainda faltasse mais de mês para o Natal, com toda aquela neve era difícil não pensar sobre as festas de fim de ano. Ele não deveria estar contente, mas sentia-se mais seguro e o frio só ajudava. Aquele vilarejo parecia, de fato, um cartão de Natal, o que o colocava na atmosfera de sonho que ele tanto adorava.
Eles caminhavam devagar, as mãos dadas no bolso do sobretudo dele, protegidamente aquecidas, enquanto ela observava cuidadosamente tudo ao seu redor. Ele sabia que ela tentava recuperar memórias que talvez sequer existissem, mas que ainda assim eram reais. Mais do que eles próprios.
A única coisa que ela fez ao chegar em frente à casa onde morara foi para de caminhar por um momento, olhando-a por inteiro, mas logo conduzindo-o para seguir em frente. Foi ele quem viu o cemitério primeiro, bem no final do vilarejo. Havia apenas um portal para demarcar o início, mas não havia grades ou muros. Menos de cinquenta lápides organizavam-se belamente no pequeno gramado coberto de neve, as famílias reunidas claramente localizáveis pelos seus sobrenomes. Não precisaram caminhar muito para chegar a um túmulo simples, belo e duplo, onde estava inscrito:
"In loving memory of Lily and David.
Their love shall be stronger than the tides of life;
their beloved children are the beacons of their immortal souls.
"The last enemy that shall be destroyed is death."
July 23rd, 2007."
Ela parecia paralisada diante das inscrições. Uma foto de uma bela mulher ruiva e de um bondoso homem loiro no dia de seu casamento estava emoldurada acima; ambos riam, com tal inocência que era impossível acreditar que estavam mortos. Pareciam reais, prestes a saírem da casa por onde haviam passado há pouco, David olhando inquisidoramente para ele, com ciúmes da filha; Lily entre divertida e formal, sinceramente encantada pelo genro, e ainda mais encantada pela alegria da filha. Ele podia perceber agora que ela havia herdado tudo da mãe, a não ser pelos olhos e a boca, mas emanava algo que parecia vir dos dois, uma essência inconfundivelmente misturando as expressões de ambos.
Era desnecessário dizer qualquer coisa; ele a puxou para si no exato momento em que ela não pôde mais suportar tamanha dor. Por um longo tempo ele ficou ali a acariciá-la lenta e carinhosamente, olhando a neve cair, chorando junto sem perceber, desejando profundamente que ela não tivesse de passar por isso. Quando a conhecera ela tinha perdido sua mãe recentemente, mas jamais falava sobre isso, e ele sabia perfeitamente que ela não falava por ser difícil demais, duro demais.
- Bem, eles estão mortos, não há motivo para ficar mais tempo aqui, eu suponho - ela se afastou, virando-se novamente para o túmulo, ainda abraçada nele. Seu olhar demorou-se na foto e nos nomes, e então ela se deixou ser levada embora, caminhando pelo tapete fofo de neve que cobria todo o vilarejo.
- Seu irmão iria ficar feliz em vê-la - sussurrou ele, tentando confortá-la.
- Eu já passei bastante tempo com ele esse ano - disse ela, finalmente dando um sorriso fraco. - Agora quero voltar para casa com você e ficar no nosso quarto até ser inevitável sairmos.
Ele a beijou na cabeça, levando-a para o hotel, onde ficariam até pegarem o primeiro voo da manhã para Helsinki. Ele a viu levantar de madrugada, indo fumar na janela, e depois voltar se aconchegando nele, dormindo tranquilamente, já sem lágrimas. Voltariam para Kitee então, e talvez fosse mais fácil agora... sim, agora seria mais fácil. Ele garantiria isso, pelos dois.
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