Segurando-se para não sair saltitante do supermercado, ela caminhava pelo estacionamento, empurrando seu carrinho e tentando caminhar tão rápido o quanto podia com seus sapatos de salto desconfortáveis. Tentou não se importar muito com isso, afinal, logo ela estaria em casa e tinha um fim de semana inteiro e ainda por cima com direito ao feriado de Natal para descansar.
- Não, vocês dois, agora nós vamos para o carro! Não! Vocês já ganharam chocolate o suficiente... Mariana, por favor, larga esse livro para caminhar, pelo menos!
Havia algo de extremamente familiar naquela voz que não parecia muito distante. Ela se virou e deparou-se exatamente com quem esperava. Eram os mesmos cabelos longos e lisos, a mesma forma de xingar já quase rindo, o mesmo sorriso habitual, só que agora com três crianças disputando sua atenção. Sem poder mais se conter em sua alegria, ela correu e, antes que conseguisse alcançá-la ela se virou e também a viu. Por um momento, ela ficou paralisada: a amiga nem parecia mais a mesma. Usava terninho e salto alto, cabelos comportadamente lisos e bem arrumados, mas era a mesma garota que vinha correndo e rindo para abraçá-la. Sem dizer nada, as duas correram e se abraçaram, rindo de nada além de pura felicidade.
- Meu Deus, você não mudou nada! - disse a agora advogada de sucesso, com direito a cabelos arrumados e tudo mais. - Pude te reconhecer de longe! E minha nossa, que crianças mais lindas... Meu Deus...
Ela foi beijar cada uma das crianças, apaixonada por crianças que era, e as própias crianças trataram de se apresentar, bem educadas como haviam sido, enquanto eram observadas pela mãe com um sorriso tranquilo e amoroso.
- Deixe-me adivinhar... Você ganha 425 milhões de libras por mês e é a advogada mais disputada por aqui?
- Não, longe disso - disse ela rindo, já pegando um dos gêmeos no colo. - Mas certamente consegui ter algum dinheiro, afinal, dois advogados ganham mais do que um só...
Ela riu, o mesmo riso alegre e apaixonado de quando tinham 15 anos e a outra apertou os olhos, perscrutando sua expressão. Então, subitamente compreendeu tudo.
- Não, não pode ser! Vocês...
Ela levantou a mão esquerda com seu melhor sorriso e em seguida acariciou a barriga com a mesma mão.
- Não pode... Meu Deus!
Elas se abraçaram de novo, rindo, alegres. Ninguém conseguiria compreender a conversa, mas se tratava de duas velhas amigas... Que subitamente viam seus planos mais impossíveis realizados. Não precisariam jamais de qualquer palavra para compreender o que havia acontecido a cada uma, os sinais eram claros - todos os sonhos haviam dado incrivelmente certo, até mesmo para aquela que era a mais cética, justo ela, acabara realizando seu sonho ainda melhor do que o planejado. Era uma vida muito melhor de viver do que sonhar, o que ambas jamais imaginaram que viriam a saber um dia. Mas felizmente agora sabiam.
- E você...? - perguntou a advogada, com um sorriso de quem já sabe a resposta.
- Confira a cor dos olhos - disse a ruiva, rindo. - Todos verdes. Eu te disse que as crianças sairiam todas a cara dele, se bem que a Mariana é exatamente a mistura de características...
- Você nem acreditava que haveriam crianças, quanto mais dizia isso, eu lembro bem, humpf - ela fez uma expressão fingidamente brava e as duas riram. - Mas viu só? Tudo deu certo, até demais. E eu que sempre achei que ia ter um monte de filhos e você é que vem com a família gigante...
- Você não viu nada ainda, tem mais por vir - ela deu um enorme sorriso, que iluminou os olhos castanhos exatamente como acontecia há anos atrás, quando toda essa história havia começado. - Eu até parei de dar aulas para cuidar das crianças... Justo eu, largando tudo para cuidar de crianças! Eu que sempre fui a pessoa mais independente e orgulhosa...
- Até conhecê-lo - disse a advogada, com aquele seu antigo ar sábio quando se tratava da amiga. Elas pararam por um momento, apenas para se observarem mutuamente, felizes. Tudo estava em seu lugar como elas haviam tanto desejado, até inesperadamente maravilhoso para a cética, que agora via a realidade ainda melhor do que seus sonhos. Ambas sabiam que haviam passado tantos anos longe uma da outra apenas porque fora inevitável, mas agora não se largariam nunca mais, não quando tinham a chance de ter exatamente a vida que, no caso da advogada, sempre sonhara, e no caso da ex-professora, a vida que secretamente sempre desejara... apenas se fosse ao lado dele. Agora havia anos de história para contarem uma à outra, e não se desgrudariam nunca mais e, muito mais do que isso, agora fazia total sentido a forma estranha e incrível que as coisas aconteceram, aproximando-as sempre mais. Mais alegres do que jamais haviam estado antes, combinaram o Natal que um dia a advogada sonhara e contara à ex-professora. Acabaram por formar a família mais maluca e foi o Natal mais cheio de folia que houvera na vida de todos, mas também, haviam formado, inocente e alegremente, uma família estranha e cheia de alegria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário