domingo, 30 de maio de 2010

O oceano não é verde.

Estava lendo um texto de Caio Fernando Abreu (À Beira do Mar Aberto) e finalmente percebi porque somos tão impenetráveis, tão intensos. E por somos, me refiro unicamente à mim e à um certo poeta finlandês, porque o resto eu não conheço e nem penetro, o resto não vê o mesmo mar que eu e ele. Eu me perguntava tanto porque essas barreiras intransponíveis existiam em mim, porque não conseguia deixar ninguém se aproximar de verdade, mas a resposta é tão simples que chega a ser absurdo que ninguém perceba logo de cara a verdade. Porque é simplesmente isso: se somos o que ninguém enxerga, somos nossa mente, nossa infância, nossas visões, nossos segredos, como alguém que não vê tudo da mesma forma poderia penetrar em nossa essência? É impossível. Porque se eu digo e explico pormenorizado: o mar é cinza como aqueles olhos lindos de lobo, a praia é deserta, existem pedras altas e um vento frio e cortante fazendo os cabelos voarem, mas tudo isso é reconfortante, porque é onde se pode pensar de verdade, é onde se revela tudo e se pode ser um ser humano que tenta ser melhor, é onde se revelam as fraquezas e as belezas, e para isso se passam horas ali, observando o oceano, que de certa forma, é a eternidade. Se alguém vê o oceano verde ou róseo ou não se vê ali, não vê naquelas ondas tudo que envolve sua mente, como poderia compreender isso? Pois nada mais sou do que a garotinha que senta sobre as grandes pedras e abraça os joelhos, observando séria e um tanto obscura o mar em sua imensidão, e pensa não apenas na sua pequenez, mas também em sua fraqueza e seus pecados, e por outro lado sabe que um dia pode conseguir ser algo belo e puro, se esforçar-se bravamente. Quem não entende a dimensão de tudo isso, não pode me penetrar nem me conhecer, porque simplesmente não é assim,  não é como eu, e não existe o que destrua essa barreira. Pode haver convivência, compreensão, amizade e até paixão, mas o amor maior que a vida, a verdadeira conexão inquebrável entre duas almas jamais poderá existir. Não importa o quanto tente desvendar tudo que existe por trás do olhos escuros e brilhantes, não é possível, pois para derrubar todas as barreiras é preciso entender a necessidade da pureza, a escuridão e o sol que aquece suavemente uma manhã de inverno, a imensidão do mar e as longas horas à observá-lo, pois isso é o íntimo, a essência, o que realmente faz ser quem somos. Quem é feito de um mar verde, de umas alegrias diferentes, sem pureza, sem inocência, sem conservar a criança, simplesmente não pode entender e muito menos estar realmente próximo da alma oceânica, pois a alma oceânica só se abre à outra igual, até mesmo porque essa abertura é infinita e eterna: afinal, as duas almas sabem exatamente e perfeitamente cada pequeno átomo que constitui o que são, e o que os tornou assim. O Oceano oscila entre azul escuro, nas noites onde reflete a lua cheia, o azul claro das tardes douradas e o cinza das manhãs frias de vento cortante, onde o céu fica quase branco. Além dessas oscilações, não existe conexão possível: um oceano diferente ou uma diferente visão fica à um abismo intransponível de distância. E isso é infinito e íntimo, não tente entender, isso é da alma oceânica, não de outro tipo de alma ou da mente.

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