sábado, 7 de maio de 2011

Mikrokosmos XV

    Ele sorriu ao finalmente vê-la. Seus longos cabelos caíam para a frente, enquanto ela parecia muito concentrada em observar uma florzinha amarela à sua frente, tocando na barra de seu vestido. Uma brisa suave fazia com que tênues mechas de seus cabelos esvoassem sobre os ombros nus, numa carícia delicada, mechas absolutamente laranjas ao sol. O vestido caía-lhe bem, assim como a luz, o gramado e tudo mais que a envolvia. Quando ouviu-o se aproximando, por um momento fixou-lhe um olhar intenso, mas logo sorriu, levemente assustada da leitura dele em seu rosto, mas era inevitável.
    - Estou triste porque o dia é lindo e meu vestido também, e ainda assim não sou feliz - respondeu ela à sua pergunta muda, entrelaçando seus dedos na mão que ele lhe oferecia, sentando-se ao seu lado no tronco de árvore.
    - Teus cabelos estão delicados e muito ruivos, muito brilhantes. Gosto da brisa em ti, te traz uma beleza frágil.
    Ela nada respondeu-lhe, apenas deu um sorriso triste e cansado, olhando o dia bonito que se estendia pelo campo. Acariciou-lhe os belos e longos dedos de pianista, completamente absorta em seus pensamentos. O vestido branco era perfeito em cada mínimo ponto, assim como as pequenas flores que pontilhavam o campo e as folhas que balançavam aleatória e encantadoramente nas árvores.
    - Assisti um filme tão triste quanto belo hoje. Lembrou-me de ti.
    - Conte a história.
    - Era bastante clichê, mas ao menos o homem era um padre e, obviamente, é por isso que me lembrei de ti - os dois trocaram um sorriso divertido e carinhoso. - Minto. Na verdade não foi só por isso. Era aquela velha história de jovens que se amaram mas acabaram se separando e continuaram se amando, e aí se encontram no final da vida.
    - Mas...?
    - Mas ele disse que dormia todas as noites com ela - sem perceber, se aconchegou mais a ele ao dizer isso, acariciando-lhe a mão. - Ele fechava os olhos e simplesmente imaginava-a em seus braços, e isso é tão impossível que é bonito de se acreditar. Eles tiveram uma filha que herdou os olhos azuis dele, e ela simplesmente não conseguia se irritar com a criança - ela deu de ombros. - Acho que nossos filhos serão extremamente mal-criados.
    Ele riu, acariciando-lhe o rosto e olhando-a perscrutadoramente. O motivo de sua tristeza ainda lhe escapava, mas havia algo intenso ali, ele podia ver seus olhos ardentes e sentia sua pulsação acelerada, sua respiração densa. Acariciou as alianças na mão dela, olhando-a significativamente e, de alguma forma, eles se perderam na imensidão dos olhares outra vez, como se fosse a primeira vez, como se acabassem de descobrir que eram preenchidos pelas mesmas águas. A brisa tornava tudo esvoaçante, mas o olhar era profundo, inesperado no meio da tarde. Os medos mais uma vez esvaíam-se e inesperadamente a certeza, agora absoluta, nascia tímida, quase fraca demais para aparecer. Mas as florzinhas amarelas brilhavam por todo lado, lindas e inegáveis.

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