O celular parecia estar tocando há séculos quando ela finalmente conseguiu se acordar para atendê-lo.
- Sim, sim, eu cheguei ontem à noite - ela esfregou os olhos, o quarto de hotel estava completamente iluminado pela luz matinal que entrava pelas grandes janelas. Cobriu os olhos com um braço, amaldiçoando mentalmente toda e qualquer coisa que a estivesse mantendo acordada. - Não, no bar de sempre...
Ouviu um suspiro e sentiu alguém se mexendo ao seu lado. Sobressaltou-se e viu-o dormindo ao seu lado: então não havia sido um sonho! Repentinamente se sentiu mais acordada do que nunca. Ele franzia levemente o rosto pálido por causa da claridade e, começando a falar mais baixo ao telefone, ela foi fechando as cortinas.
- É, eu sei...Eu encontrei ele no bar...Não, não vou voltar para Los Angeles hoje...Ahn, talvez...Não sei onde ele está não...Ok, ok, tudo bem...Sim, nos veremos.
Ela desligou o celular e largou-o no chão ao lado de onde havia sentado. Acendeu um cigarro e deu uma tragada profunda, hábito seu para clarear os pensamentos. Não fazia a mínima ideia de como havia ido parar ali, mas no fundo, de alguma forma, todos os últimos cinco anos acabariam por levá-la até ele definitivamente, de qualquer forma. Ela sabia disso, assim como ele também sempre soubera, tão tranquilamente que sequer formulavam pensamentos conscientes sobre isso, apenas sabiam com a certeza tranquila de algo forte e inevitável - o problema é que jamais imaginara assim tão rápido, tão inesperado. Algo havia mudado profundamente nela, mas não de uma hora para outra, aquela noite havia sido apenas o rompimento final, o desenlace necessário daquelas transformações todas. Algo de muito importante começara a acontecer há alguns anos e agora borbulhava mais forte do que nunca sob a superfície e, apesar de sentir isso intensamente, não conseguia pensar sobre, apenas sentia, sentia numa vastidão que nem ela própia poderia explicar, um sentimento estranhamente novo e ao mesmo tempo levemente familiar, como voltar para casa depois de acabar de se mudar.
Um barulho nos lençóis e ele estava sentado nos pés da cama, perto de onde ela estava, observando-a sem sequer um resquício da timidez que ela supusera que ele sentiria estando nu em frente a uma mulher com quem transara pela primeira vez na última noite. Estava absolutamente sério, os olhos azuis penetrando-a profundamente, claramente questionando o que viria pela frente. Ambos sabiam que não havia sido, nem de longe, um ato que não traria grandes consequências. Redescobrindo sua própia imensa timidez, ela levantou-se de súbito indo guardar o celular, indo arranjar qualquer coisa para fazer que não fosse ficar ali sob aquele olhar assustadoramente intenso (e mesmo que ela ainda não percebesse, que lhe agradava imensamente). Queria fingir uma naturalidade inatingível agora, tentando fingir que nada fora do comum havia acontecido, nada além do esperado para duas pessoas que todo mundo sabia, de alguma forma, que ficariam juntos de algum jeito mesmo que fosse apenas por um segundo ou uma vida inteira. Inclusive (inquietantemente) eles própios sabiam disso. Ele esperou pacientemente que ela desistisse da inútil tentativa de continuar no cotidiano esperado. Não sabia que, de algum modo, ela também estava testando a veracidade da relevância de tudo, e com uma alegria tão sincera e reprimida que nenhum dos dois jamais perceberia, ela virou-se para encará-lo outra vez, pedindo-lhe com o olhar que não lhe perguntasse nada agora, pedindo desesperadamente o alívio de poder permanecer em silêncio, nada poderia ser feito ou decidido agora.
Um mínimo, frágil gesto: quando ela ia para o banheiro ele estendeu-lhe a mão. Ela olhou para a mão e em seguida para ele, que olhava-a impertubavelmente, os olhos azuis cada vez mais cinzentos - e apesar da angústia, do medo visceral que sentiu, ao invés de correr, fingir que não havia notado nada, com delicadeza e receio ela tocou levemente sua mão, deslizando até que ele pudesse segurá-la e apertá-la suavemente. Depois de anos, pela primeira vez, seus olhos ardiam de lágrimas. De ambos.
- Sim, sim, eu cheguei ontem à noite - ela esfregou os olhos, o quarto de hotel estava completamente iluminado pela luz matinal que entrava pelas grandes janelas. Cobriu os olhos com um braço, amaldiçoando mentalmente toda e qualquer coisa que a estivesse mantendo acordada. - Não, no bar de sempre...
Ouviu um suspiro e sentiu alguém se mexendo ao seu lado. Sobressaltou-se e viu-o dormindo ao seu lado: então não havia sido um sonho! Repentinamente se sentiu mais acordada do que nunca. Ele franzia levemente o rosto pálido por causa da claridade e, começando a falar mais baixo ao telefone, ela foi fechando as cortinas.
- É, eu sei...Eu encontrei ele no bar...Não, não vou voltar para Los Angeles hoje...Ahn, talvez...Não sei onde ele está não...Ok, ok, tudo bem...Sim, nos veremos.
Ela desligou o celular e largou-o no chão ao lado de onde havia sentado. Acendeu um cigarro e deu uma tragada profunda, hábito seu para clarear os pensamentos. Não fazia a mínima ideia de como havia ido parar ali, mas no fundo, de alguma forma, todos os últimos cinco anos acabariam por levá-la até ele definitivamente, de qualquer forma. Ela sabia disso, assim como ele também sempre soubera, tão tranquilamente que sequer formulavam pensamentos conscientes sobre isso, apenas sabiam com a certeza tranquila de algo forte e inevitável - o problema é que jamais imaginara assim tão rápido, tão inesperado. Algo havia mudado profundamente nela, mas não de uma hora para outra, aquela noite havia sido apenas o rompimento final, o desenlace necessário daquelas transformações todas. Algo de muito importante começara a acontecer há alguns anos e agora borbulhava mais forte do que nunca sob a superfície e, apesar de sentir isso intensamente, não conseguia pensar sobre, apenas sentia, sentia numa vastidão que nem ela própia poderia explicar, um sentimento estranhamente novo e ao mesmo tempo levemente familiar, como voltar para casa depois de acabar de se mudar.
Um barulho nos lençóis e ele estava sentado nos pés da cama, perto de onde ela estava, observando-a sem sequer um resquício da timidez que ela supusera que ele sentiria estando nu em frente a uma mulher com quem transara pela primeira vez na última noite. Estava absolutamente sério, os olhos azuis penetrando-a profundamente, claramente questionando o que viria pela frente. Ambos sabiam que não havia sido, nem de longe, um ato que não traria grandes consequências. Redescobrindo sua própia imensa timidez, ela levantou-se de súbito indo guardar o celular, indo arranjar qualquer coisa para fazer que não fosse ficar ali sob aquele olhar assustadoramente intenso (e mesmo que ela ainda não percebesse, que lhe agradava imensamente). Queria fingir uma naturalidade inatingível agora, tentando fingir que nada fora do comum havia acontecido, nada além do esperado para duas pessoas que todo mundo sabia, de alguma forma, que ficariam juntos de algum jeito mesmo que fosse apenas por um segundo ou uma vida inteira. Inclusive (inquietantemente) eles própios sabiam disso. Ele esperou pacientemente que ela desistisse da inútil tentativa de continuar no cotidiano esperado. Não sabia que, de algum modo, ela também estava testando a veracidade da relevância de tudo, e com uma alegria tão sincera e reprimida que nenhum dos dois jamais perceberia, ela virou-se para encará-lo outra vez, pedindo-lhe com o olhar que não lhe perguntasse nada agora, pedindo desesperadamente o alívio de poder permanecer em silêncio, nada poderia ser feito ou decidido agora.
Um mínimo, frágil gesto: quando ela ia para o banheiro ele estendeu-lhe a mão. Ela olhou para a mão e em seguida para ele, que olhava-a impertubavelmente, os olhos azuis cada vez mais cinzentos - e apesar da angústia, do medo visceral que sentiu, ao invés de correr, fingir que não havia notado nada, com delicadeza e receio ela tocou levemente sua mão, deslizando até que ele pudesse segurá-la e apertá-la suavemente. Depois de anos, pela primeira vez, seus olhos ardiam de lágrimas. De ambos.
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