terça-feira, 31 de maio de 2011

Mikrokosmos XVII

     Decidiram-se por passar o dia fora, por ímpeto dele. Colocaram toalha para piquenique, comida, cigarros e alguns livros no carro e logo estavam na estrada. A animação era tanta que até haviam se esquecido de ligar o som, primeira coisa que sempre faziam ao entrar no carro. Enquanto ela se encarregava disso, ele perguntou:
    - Onde iremos?
    - Como assim?
    - Onde iremos passar o dia? - ele tamborilava no volante, alegre feito uma criança. Ela o olhou, sinceramente confusa.
    - Eu achei que você soubesse onde estávamos indo.
    - Eu te convidei para irmos passar o dia em qualquer lugar fora da cidade, qualquer lugar não é um nome específico - disse ele, sério como se explicasse a alguém que de fato não pudesse entendê-lo. Ela riu, parecia coisa de livro infantil, e era esse tipo de coisa que o fazia ainda mais adorável.
    - E por que não? Podemos sim ir para qualquer lugar. É só não cuidarmos o caminho, apenas a paisagem, e pararmos onde mais nos agradar.
    - É uma boa opção - concordou ele, já sorrindo. Talvez fosse bom mesmo, para eles que planejavam tudo com um tempo imenso de antecedência e em seus mínimos detalhes, simplesmente se esquecer de que planos existem por um dia - e talvez, só talvez, isso fosse muito melhor do que viver planejando. Silenciosamente, foram avançando atentos a tudo ao redor, ele ia pelas ruas que lhe pareciam simpáticas e logo estavam ainda mais longe da cidade do que já moravam.
    - Imagina que legal se a gente chegar no fim da estrada! Teríamos que descer do carro e ver como tudo era ao redor, encontrar esquilos e...
    Ele riu da empolgação dela, olhando tudo como se nunca tivesse visto coníferas e pássaros antes. Tocou-lhe a mão, olhando-a carinhosamente:
    - Mais do que termos de lutar contra um grifo e perdermos o caminho de casa para sempre e caminharmos até Valfenda não pode acontecer.
    - Seria encantador! Será que poderíamos viver perto dos elfos? Imagine acordar com o canto de elfos, ao invés de pássaros! E então nós...
    Mas eles se olharam e caíram na gargalhada. O pior de tudo é que ambos podiam se ver com perfeita naturalidade levando uma vida de camponeses em Valfenda, cumprimentando os elfos com aquela reverência de adoração sincera todos os dias, maravilhosamente num mundo onde nada podia atingí-los. Teriam inúmeros filhos, ele seria guerreiro e ela cuidaria daquelas crianças que seriam todas bastante parecidas com eles, e mesmo que as guerras viessem, ele lutaria milhares delas apenas para poder ver seu rosto sorridente sob o sol quando voltasse, com aquela mecha mais clara dos cabelos ruivos sempre voando no rosto, só que com menininhas sardentas e alegres como ela própria agarrando-se ao seu vestido, correndo para ele. Depois de um tempo em silêncio, ambos deram um longo suspiro e só isso já foi motivo para se olharem e rirem outra vez.
    - Você também estava imaginando como seria nossa vida em Valfenda? - perguntou-lhe retoricamente, mas ela riu.
    - Na verdade eu estava pensando que esqueci em cima da mesa da cozinha uma carteira de cigarros, mas meu subconsciente estava sonhando com isso sim meu amor, é claro.
    Ambos riram, ele balançou a cabeça:
    - E eu achando que tinha mudado você...
    - As pessoas não mudam, você sabe disso. Não no fundo - ela fez-lhe um carinho na perna, olhando-o carinhosamente. Nunca daria o braço a torcer que era tão sonhadora o quanto ele, jamais. Mas de fato não estava pensando naquilo e ficou completamente encantada com o pensamento dele. Mesmo depois de estarem morando há mais de um ano juntos, ainda não havia se acostumado com aquela natureza pura e quase infantil, aquele romantismo que ela jurava por todos os Deuses que não poderia ser bom. Mas estranhamente, era. E aos poucos, ela própria, apesar de dizer que as pessoas não mudam, havia sim, mudado e aprendido a ter sonhos de tamanha delicadeza que ela própria se surpreendia. De fato, era comum pegar-se sonhando com uma existência simples, longa e tranquila ao lado dele, apenas e unicamente ao lado dele.
    Em outros tempos, ela fugiria correndo até mesmo da ideia de poder se sentir assim, mas ali estavam eles, casados, e ela sabia perfeitamente bem que não poderia estar mais entregue.
    À esquerda, as árvores começaram a se tornar mais frequentes e, longinquamente, ouviam-se pequenos ruídos típicos da floresta. Entreolharam-se e, num acordo tácito, avançaram apenas mais um pouco e estacionaram o carro, descendo e entrando na floresta ainda completamente sem rumo. Andavam segurando firmemente a mão um do outro, ela ainda mais forte, afinal, jamais havia entrado numa floresta. Olhava tudo com fascínio e um pouco de medo, e ele, pela primeira vez, não observou a natureza ao redor. Estavam de casacos xadrez quase iguais, a não ser pela inversão das cores: o dele era branco e verde e o dela, verde e branco.
    Havia tanto verde por ali que, se não fosse pelos longos cabelos arruivados ele poderia considerá-la "um elemento da paisagem", o que disse nesses termos mais tarde para ela, fazendo-a rir pela forma com que falou. De alguma forma, estavam subitamente sérios. Os ruídos da floresta, a claridade dourada e cintilante pareciam ter algo de sagrado naquele início de manhã, quase como um ritual. Depois de avançarem por um longo trecho, ele parou, fazendo-a parar consigo. Olhou-a tão intensamente que, mesmo que estivessem em qualquer outro lugar, não havia como não anular tudo o que houvesse por perto. Quase esquecidos do que a paisagem lhes causava, a não ser por um resquício de panteísmo que a ocasião havia ressucitado em ambos, beijaram-se voluptuosamente, por um dia inteiro completamente esquecidos do tempo e do espaço, esquecidos de que havia um mundo real onde existiam outras pessoas que tinha coisas absurdas como compromissos e aborrecimentos.
     Caminharam, amaram-se, às vezes riam simplesmente por verem um esquilo que julgavam divertido ou por ver uma planta bonita. Passeavam, ele lhe oferecia flores que ela jamais havia visto antes, carregava-a na garupa e a mimava ainda mais do que o de costume. Qualquer outro homem iria parecer-lhe detestável agindo desta forma, mas ela não via nada de repreensível nele, simplesmente era incapaz de ser qualquer coisa de quem fora outro dia, longe dele. Ele próprio jamais teria coragem de tratar qualquer outra pessoa assim, mas lá estava ela com seus olhos sorridentes, seu rosto de sardas quase imperceptíveis, seu silêncio que preenchia o dia magicamente. Encontraram um rio, na beira do qual dormiram, sem se lembrar sequer de comer ou fumar, simplesmente abriram um único saco de dormir e ficaram olhando o céu e sentindo a proximidade em que estavam até que adormeceram como crianças cansadas.
    Quando estava amanhecendo, foram retornando para a estrada, para o dia amanhecendo que desintegraria cada átomo em perfeita ordem naquele tempo atemporal. Nunca mais falaram sobre isso, mas foi o dia que brilhou em seus olhares pelo resto de seus dias.

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