sábado, 7 de maio de 2011

Pedaço de Mim

Não mais que um vulto, uma sombra esguia e diáfana de longos cabelos. Era São Paulo, era manhã, garoava e era bonito. Ele abriu a porta e mais adivinhou do que sentiu o cheiro da fumaça de cigarro, seus olhos negros mal vislumbrando um resto de cabelos ruivos que esvoaçava enquanto ela descia rapidamente as escadas do edifício. Por alguma razão esperou que ela voltasse e, certamente sem razão alguma, ela realmente voltou, e ele jamais saberia dizer quanto tempo ela demorou. Voltou com uma xícara de café que segurava em uma das mãos parecendo, de alguma forma, se aconchegar naquele gesto simples. Seus olhos, tão negros quanto os dele, subitamente levantaram-se, adentrando os dele, sendo invadidos por ele também. Sua expressão não se alterou sequer um milímetro, mas parecia que seu olhar havia se transformado completamente, como se algo nele a invadisse como jamais alguém ousara antes e, longe de estar ofendida, ela ficava simples e honestamente surpresa. Eram nove horas da manhã, os carros buzinavam, as crianças estudavam e o mundo nunca parou - mas subitamente eles tinham uma vida inteira juntos, o paletó enlaçando o vestido, o cigarro de filtro vermelho tocando prazerosamente os lábios bem desenhados de mesma cor, aquelas mãos longas acariciavam-lhe a nuca, ela ria na neve de Londres, aqueles olhos alegres de criança, tudo ganhado, tudo perdido, num átimo. E quem saberia, afinal? Eram dois estrangeiros em sua terra natal, mas que no íntimo dividiam um chimarrão, um pão de queijo e talvez, apenas talvez, um sorriso secreto.

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