A brisa trazia as últimas folhas remanescentes nas árvores, dando um certo ar de magia, ao menos aos olhos de Aleen para aquela tarde. Karel sorria ao seu lado, caminhando com as mãos enterradas nos bolsos, eventualmente olhando-a. Era bom, era quase necessário caminhar por aquele bosque, de vez em quando. Ela podia percebê-lo inquieto, como sempre que ele estava se segurando para dizer algo, mas não perguntou nada, apenas porque se divertia com ele a espiando com um sorriso no rosto. Logo Karel não aguentou mais e disse:
- Mas honestamente, por que você não vem morar aqui?
Aleen sorriu, olhando-o com carinho. Tinha quase certeza que ele falaria nisso antes mesmo que ele a convidasse para darem o passeio habitual. Pensando na melhor forma de responder, subitamente ficou séria outra vez. Olhou para frente, caminhando mais devagar agora, enterrando também as mãos nos bolsos do longo casaco vermelho.
- Talvez... Talvez se a oportunidade houvesse surgido há um ano e meio atrás... Sim, certamente, certamente eu teria vindo - ela mordeu o lábio inferior, olhando o horizonte sem realmente vê-lo. Lembrou-se de seu marido, do que havia feito nesse meio tempo e, no íntimo, duvidou que estivesse sendo sincera. Se houvesse, por menor que fosse, uma chance de ter seguido o caminho que havia seguido, ela sabia que teria feito a mesma escolha. Karel sabia disso também, mas ainda assim passou um braço sobre os ombros dela acolhedoramente - afinal, quem sabia? Era uma possibilidade que, de fato, jamais fora explorada mas continuava ali, Karel fazia questão de mantê-la tão forte o quanto fora quando surgiu. Mas só Deus sabia até onde Aleen poderia ir.
- Acho que, no fundo, eu sempre soube que você não viria – ele lhe beijou carinhosamente o rosto, o que fez com que ela corasse. Não era acostumada com pessoas tão calorosas, mas gostava imensamente dos estranhos costumes de Karel, por qualquer razão que fosse.
- Talvez se eu não estivesse tão ligada ao meu marido e ao meu próprio país...
- Sim, eu juro que ainda mato essa tal Finlândia - disse ele, revirando os olhos, fazendo-a rir. - Pelas barbas de Merlin! Você é filha de uma irlandesa com um holandês e nasceu na Finlândia - ele balançou a cabeça, fingidamente bravo. - Você é, literalmente, um acidente geográfico.
- Obrigada - ela sorriu, beliscando-lhe levemente no quadril. Ele fez uma careta e riu, logo ficando sério. Olhou-a e ele nem precisou dizer que agora realmente começaria a conversar.
- Nunca imaginei que estaríamos aqui hoje. Lembra quando nos conhecemos? Você ainda era uma garotinha completamente encantada por Harry Potter...
- Ainda sou!
-... e continua sendo, mas na época você era absolutamente diferente, apesar de ainda ser essencialmente igual...
Aleen riu e Karel calou-se, olhando-a fixamente, como se não percebesse o que dizia de errado. Ela comentou, quase rindo:
- Ainda bem que eu mudei muito mas não mudei absolutamente nada.
- Ah, poxa, você entende, não me interrompa - quis xingar ele, mas sorria também. - Enfim, eu achava que jamais ficaria longe de Edda e tinha certeza que você se tornaria uma freira em algum ponto ou viveria a vida inteira conversando sobre anjos com Petteri... Mas agora Edda é uma amiga e você se casou com Petteri como se vocês houvessem fugido de um conto de fadas estranhamente católico...
- Eu também não imaginava absolutamente nada disso - disse ela, franzindo o cenho e parando sob uma árvore, sem se desenlaçar de Karel. Os cabelos crespos e longos dele estavam graciosamente revoltos e, apesar de serem castanhos, pareciam mais claros sob aquela luminosidade. Seus olhos quase negros estavam claramente perdidos em profunda meditação, ainda que encarassem os dela. Aleen suspirou, ajeitando uma mecha de cabelo que caía no rosto de Karel.
- Acho que em algum ponto eu poderia ter ficado aqui - disse ela, pela primeira vez realmente considerando a ideia. - Funcionamos juntos, sei lá. Consigo me imaginar crescendo com a sua amizade, sinceramente. Acho que, mesmo que estejamos morando muito longe um do outro, sua amizade me faz crescer, me faz muito bem - ela mordeu o lábio inferior, olhando-o. Ele lhe escutava atentamente, como se cada palavra dela tivesse vital importância. - Em algum ponto, eu juro que quero viver perto de você ainda, seja daqui dois ou vinte anos. Você é incrível.
- Você também... - pela primeira vez, Karel corou em sua frente. Ela sorriu mais ainda diante dessa súbita timidez. - Vou te transformar numa pessoa ecologicamente correta, que faz exercícios, tem boa alimentação, uma ex-fumante, principalmente...
- Karel! - repreendeu ela, mas riu com ele também. - Ok. Você será um fumante sedentário e católico assim que eu me mudar para Amstelveen.
- Você pode se mudar exatamente agora! - disse ele, apontando, subitamente excitado como uma criança, para um floco de neve solitário que caía. - Viu só? Aqui também tem inverno e neve! Por que não tenta nem que seja por uma semana?
Pelo sorriso triste que Aleen lhe deu como resposta, ele não falou mais nada. Nem ela própria entendia a resistência em viver ali, justo onde tinha tantos amigos verdadeiros, onde uma vida completamente nova e interessante se apresentava completamente disponível para ela. Do seu bolso, Aleen ouviu seu celular tocar, e ambos sabiam que era Petteri, avisando que vinha buscá-la. Por um momento, ainda se encararam, ambos sentindo-se inexplicavelmente impotentes. Karel puxou-a para si num abraço apertado como se jamais fosse vê-la outra vez. Aconchegaram-se um no outro e, mesmo que estivessem tristes, sorriram um para o outro, indo de mãos dadas para o carro. Karel acreditava em destino, e talvez o de Aleen fosse justamente o de estar sempre longe dele, não? Mesmo que geralmente tentasse se enganar assim, sabia que no fundo jamais se consolaria com Aleen tão longe em todos os sentidos. Com ela sabia que passado, presente e até mesmo o futuro não pareciam tão importantes, afinal, quem pensaria muito se pudesse acariciar aqueles cabelos lisos e longos, quem se preocuparia com qualquer coisa se conhecesse a Aleen alegre, aquela que chorava de rir por besteiras e que era capaz de se comover verdadeiramente porque uma criança machucara o joelho? Em algum ponto Karel desejava mais do que tudo que pudessem tentar juntos, fosse o que fosse. E Aleen também.
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