sábado, 7 de maio de 2011

Miséria

- Esse lugar me agrada - disse ela, de súbito, fazendo com que ele se sobressaltasse. Ela sentira sua presença, afinal, e depois de meses lhe dirigia a palavra outra vez. Sentou-se no degrau sob a árvore ao lado dela, sem nada dizer, esperando pelas palavras dos lábios dela, já que nada lhe ocorria - de qualquer forma, ele não tinha o que dizer. Com o canto do olho podia vê-la mordendo o lábio inferior, um hábito tão frequente quando estava nervosa que, por um momento, ele se lembrou exatamente como era estar com ela, não apenas perto.
- É interessante - prosseguiu ela, como se estivesse falando consigo mesma e, de certa forma, não deixava de estar. Houve um tempo onde ele era ela também, e isso não pode terminar inteiramente. - Eu sempre pensei que, se você mentisse para mim ou eu tivesse qualquer tipo de mágoa com você, iria te esquecer e deixar de lado como qualquer outro, iria te odiar por um tempo e depois ser absolutamente indiferente. Mas eu ainda te amo, e não acho que isso vá mudar tão cedo e, para meu próprio espanto, não me importo com isso. Eu tenho um amor maior que a vida e isso, por si só, já faz com que eu consiga viver, porém não sei até que ponto isso é diferente do que planejávamos. Gosto das coisas assim, mesmo que sinta saudade de dias mais brilhantes e mais escuros.
Mesmo quando disse que o amava, sua voz não se alterou, sempre num tom tranquilo de quem se acostumou com as coisas más (e afinal, nem eram de todo ruins) e continua lutando, de uma forma ou de outra. A maturidade dela sempre surpreendia-o, mesmo quando ele achava que já não podia fazê-lo. Finalmente, ela o olhou nos olhos intensamente e, para sua grande surpresa, ela sorriu. Não um sorriso irônico ou amargo, mas sim o mesmo sorriso de sempre. Levantou-se, fez-lhe uma leve reverência e se afastou pelo gramado, caminhando tranquilamente na manhã cinzenta. Não olhou para trás, mas aqueles olhos verdes nunca estiveram tão fixos nela.

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