domingo, 5 de junho de 2011

Mikrokosmos XVIII

    - E então, em algum ponto eu vou tentar terminar tudo - disse ela, ainda brincando com os dedos dele, embora sua voz estivesse quase que imperceptivelmente tremendo. - Mas eu preciso pedir que você não me deixe fazer isso. Vai ser um impulso terrível apenas pelo medo de te perder e...
    - Só se você me prometer exatamente o mesmo - disse ele, absolutamente grave, olhando-a nos olhos. - Eu tenho estado equilibrado por muito tempo, muito mais do que o normal, então...
    - É claro que sim - ela disfarçou um suspiro e beijou-lhe o rosto, em seguida fitando o teto em silêncio. Como conseguira dizer aquilo? Sentia-se aliviada agora e, ao mesmo tempo, quase se arrependera no mesmo instante em que pronunciara aquelas palavras. E se ela quisesse de fato acabar com tudo, como seria? Mas ela sabia perfeitamente bem que isso seria apenas um ato impensado e terrível.
    - Tudo bem se eu agir como da vez em que você realmente o fez? - perguntou ele, súbita e timidamente, sem conseguir olhá-la. Custara-lhe muito pronunciar essas palavras, não poderia encarar aqueles olhos penentrantes agora, não onde ele havia se entregado como nunca antes, e ela jamais saberia. - Quero dizer, você compreenderia que eu ainda teria carinho por você e talvez ainda estivesse esperando por você em algum tempo?
    - É... Acredito que sim - o nó em sua garganta era inevitável ao lembrar disso, porém só ela sabia o quanto, naquela época, era-lhe impossível viver no mundo incrível que ele lhe devolvera. Arrependia-se imensamente da dor que lhe causara, os olhos azuis encarando-na dolorosamente brilhantes eram uma lembrança terrível, mas estava além de suas capacidades avançar mais naquele tempo. Seus pensamentos foram abruptamente interrompidos por ele, que quando ela se deu por conta estava deitado sobre ela, não mais ao seu lado, encarando-a com os olhos brilhando dolorosamente outra vez, mas não da mesma forma, não pelas mesmas razões.
    - Mas o que é que eu estou dizendo? - perguntou ele claramente mais para si mesmo do que para ela. - Eu te amo, eu sei disso, nós estamos casados e eu ainda... Ainda...
Ele mordeu o lábio inferior e ela encarava-o, apreensiva e comovidamente. Afastou-lhe uma mecha dos longos cabelos negros que caía e perguntou-lhe suavemente:
    - Ainda o quê, muruseni?
    - Ainda estou completamente apavorado com tudo - e ele não precisou dizer mais nada, em absoluto, para que ela pudesse entendê-lo perfeitamente. Sentia-se assim também, e mesmo que não pudesse traduzir sequer em pensamentos o que sentia, fazia total sentido o que ele dizia, o que seus olhos traduziam. Com uma vaga certeza, outra coisa inexplicável que só ela parecia capaz de sentir, ela repentinamente sabia que enfim eles estavam certos. Como sempre quiseram estar. 

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