sábado, 11 de junho de 2011

Mikrokosmos XIX

    - Meu Deus, o que houve com sua mão?
    Assustada, ela olhou para a própria mão esquerda pensando que estaria, no mínimo, vertendo sangue, mas demorou vários segundos para achar um machucado de menos de 5cm. Caiu na gargalhada com a cara de séria preocupação que ele fazia até ela rir, quando não pôde evitar o riso também.
    - Sabe, você me lembrou de um velhinho que eu conheci esses dias - começou ela, ainda sorrindo. - Ele estava com a mulher dela e se apavorou porque ela se bateu de leve num banco da praça. Você sempre age assim comigo...
    Sem saber ao certo o porquê, ela corou e tentou concentrar-se no prato de comida à sua frente. Às vezes ele lhe causava essa imensurável ternura que quase lhe trazia lágrimas aos olhos - por vezes simplesmente pela forma como a olhava. Sabia que se não fosse por aquele jeito peculiar, por cada frágil gesto dele, não haveria conquistado nada, não haveria crescido.
    Sempre pareceria-lhe um grande mistério como podia ser amada incondicionalmente, ainda mais por alguém tão infinitamente digno de admiração como ele: e no entanto ele sempre estivera ali, de uma forma ou de outra. Lembrava-se do quanto ele a ajudara anos atrás, quando ainda se conheciam pouco, mas ainda assim ele esteve lá para ajudá-la nos dias mais terríveis. A interminável (e inacreditável) beleza, a força e a segurança que ele trouxera para sua vida eram incomparáveis. Não era por acaso que já não imaginava uma vida sem aqueles olhos cinzentos cuidadosa e carinhosamente pousados sobre ela, sem poder correr para ele ao fim do dia ou passar o dia inteiro sem querer sequer sair do quarto para não sair da atmosfera de sonho quase sempre presente por ali.
    - Acho que sei agora mais um dos muitos significados de "ser casado" com alguém - ele interrompeu os pensamentos dela, olhando-a intensamente e coçando o cavanhaque loiro. - Ontem, quando estava vindo para casa começou a chover e o céu ficou de um cinza extremamente raro e perfeito, mas a primeira coisa em que eu pensei é que você não estava lá para apreciar aquela beleza comigo. Para ser sincero, isso tem me acontecido seguidamente... - surpreendido pelas próprias palavras, ele corou e desviou o olhar, repentinamente adquirindo uma respiração pesada. Não era assim que deveria ser, pensou, mas de alguma forma sentia necessidade de dizer-lhe as coisas, fazer com que ela soubesse o quanto era amada e, de fato, os olhos faiscantes depois de ouvir tais palavras pagavam sua timidez.
     Olhou-a novamente, e ao vê-la com os olhos marejados, foi invadido pela mesma felicidade que fez pedir-lhe em casamento. Não queriam acreditar, mas talvez, e só talvez, estivessem seguros agora - e sempre.

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