A sineta tocou e, como de costume, todos saíram correndo quase atropelando-a. Não era difícil mesmo: ela era magricela e pequena, só suas perguntas eram grandes. Segurava as alças da mochila e enquanto caminhava observando as copas das árvores, como sempre, pensava com aquela tranquilidade e leve alegria de voltar para casa depois da escola porque sim, ela adorava voltar para casa, mesmo que tivesse amigos na escola e adorasse responder corretamente quando a professora perguntava, mesmo que isso deixasse-a extremamente corada. Talvez sua mãe houvesse preparado algo gostoso para o almoço, talvez fossem à biblioteca de tarde, e isso era tão bom... Quando dobrou para chegar na rua de casa, que era bastante próxima da escola, viu um carro estacionado na frente de sua casa. Sabia bem que podia ser visita para qualquer um dos vizinhos, mas tinha esperanças que fosse em sua casa. Gostava de coisas "diferentes", como passear, receber visitas ou até mesmo ir na padaria por um caminho diferente. Apressou o passo e logo seu coração acelerou: vislumbrou uma roupa branca e cabelos negros...Logo quase adivinhou um sorriso no rosto do seu pai. Pôs-se a correr, balançando a mochila e os cabelos longos e lisos se soltando do rabo-de-cavalo, rindo e quase chorando, sentindo como se não aguentasse mais nenhum milésimo de segundo longe dele mas como se não houvesse velocidade no mundo capaz de levá-la até ele. Quando viu estava no colo dele, abraçando-o fortemente, ouvindo aquela risada gostosa e forte dele. Passou-lhe a mão pela barba espessa, pelo rosto, pelos cabelos, olhou-lhe nos olhos escuros, nos óculos de armação simples, no ar bondoso, na alegria irradiada daquele rosto tão amado. O céu deveria ser algo bem parecido com isso, só que todos os dias, era o que pensava.
Seu pai vinha de Brasília visitá-la quando podia, o que era relativamente raro - mesmo que fosse frequente, para ela parecia haver uma eternidade distanciando cada visita dele. Lembrava-se que desde que tinha três anos seus pais lutavam por sua guarda na justiça, apesar de se tratarem amigavelmente fora dos tribunais. Nenhum cedia nenhum mílimetro, o que não fazia sentido algum para ela, afinal, sua mãe não era exatamente a pessoa mais gentil do mundo. Seu sonho era acordar e dormir sabendo que seu pai estava no quarto ao lado, ou até no mesmo que ela. Raramente ia para Brasília, mas quando ia via seu quarto cuidado com tanto esmero e delicadeza que seus olhos enchiam-se de lágrimas. Sua avó fazia bolinhos ingleses e seu pai lhe mostrava discos e livros antigos, conversava com ela em inglês, levava-a para passear e lhe deixava conversar com seus amigos como gente grande, e dormia tão tarde que nem medo sentia. A única tristeza que sentia nesses dias era ter de voltar para casa, mesmo que seu pai fosse levá-la, afinal, era injusto que houvesse uma existência tão incrível e depois de viver nesse sonho tivesse de voltar para sua escola sem graça, pro cotidiano solitário e absolutamente sem graça que vivia com sua mãe no sul.
Mas naquele dia não estava preocupada com a partida do pai. Almoçaram e, mesmo que estivesse estupidamente feliz, não pôde deixar de perceber que sua mãe parecia haver chorado e havia uma certa tensão no ar. Derrubou molho na camiseta branca do uniforme e sua mãe, ao invés de xingá-la, disse simplesmente "Não tem problema" e mandou-lhe seguir comendo. Geralmente conversavam bastante, mas os três estavam em silêncio, apesar de haver um brilho nos olhos de seu pai, olhos que sua mãe dizia terem sido "copiados" para o seu rosto. Não ousou perguntar nada, mas depois da sobremesa sua mãe saiu da cozinha e seu pai se manifestou simplesmente dizendo: "Não teremos esse fim de semana só para nós", o que deixou-a infinitamente triste por um momento, mas logo ele continuou: "...teremos todos os dias, sempre!".
Não era exatamente algo que ela esperava ouvir. Entendeu no mesmo instante mas olhou-o insegura, incapaz de acreditar em tamanha felicidade. Mas em algum tempo estaria num avião para Brasília, mais contente impossível, acreditando ser a menina mais sortuda do mundo. E tinha razão.
Seu pai vinha de Brasília visitá-la quando podia, o que era relativamente raro - mesmo que fosse frequente, para ela parecia haver uma eternidade distanciando cada visita dele. Lembrava-se que desde que tinha três anos seus pais lutavam por sua guarda na justiça, apesar de se tratarem amigavelmente fora dos tribunais. Nenhum cedia nenhum mílimetro, o que não fazia sentido algum para ela, afinal, sua mãe não era exatamente a pessoa mais gentil do mundo. Seu sonho era acordar e dormir sabendo que seu pai estava no quarto ao lado, ou até no mesmo que ela. Raramente ia para Brasília, mas quando ia via seu quarto cuidado com tanto esmero e delicadeza que seus olhos enchiam-se de lágrimas. Sua avó fazia bolinhos ingleses e seu pai lhe mostrava discos e livros antigos, conversava com ela em inglês, levava-a para passear e lhe deixava conversar com seus amigos como gente grande, e dormia tão tarde que nem medo sentia. A única tristeza que sentia nesses dias era ter de voltar para casa, mesmo que seu pai fosse levá-la, afinal, era injusto que houvesse uma existência tão incrível e depois de viver nesse sonho tivesse de voltar para sua escola sem graça, pro cotidiano solitário e absolutamente sem graça que vivia com sua mãe no sul.
Mas naquele dia não estava preocupada com a partida do pai. Almoçaram e, mesmo que estivesse estupidamente feliz, não pôde deixar de perceber que sua mãe parecia haver chorado e havia uma certa tensão no ar. Derrubou molho na camiseta branca do uniforme e sua mãe, ao invés de xingá-la, disse simplesmente "Não tem problema" e mandou-lhe seguir comendo. Geralmente conversavam bastante, mas os três estavam em silêncio, apesar de haver um brilho nos olhos de seu pai, olhos que sua mãe dizia terem sido "copiados" para o seu rosto. Não ousou perguntar nada, mas depois da sobremesa sua mãe saiu da cozinha e seu pai se manifestou simplesmente dizendo: "Não teremos esse fim de semana só para nós", o que deixou-a infinitamente triste por um momento, mas logo ele continuou: "...teremos todos os dias, sempre!".
Não era exatamente algo que ela esperava ouvir. Entendeu no mesmo instante mas olhou-o insegura, incapaz de acreditar em tamanha felicidade. Mas em algum tempo estaria num avião para Brasília, mais contente impossível, acreditando ser a menina mais sortuda do mundo. E tinha razão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário