sábado, 11 de junho de 2011

Mikrokosmos XX

    - Vai lendo aí que vou buscar os filmes lá embaixo, ok?
    Ele concordou com a cabeça e pegou o computador dela, começando a ler imediatamente:

    "Essência é uma palavra que só faz sentido contigo. Assim: essência faz sentido quando me olhas de súbito e teus olhos estão cinzentos e brilhantes e dás um sorriso apenas através deles, como eu mesma faço para ti, como fazemos nos amando em silêncio. Roubas o sorriso puro e contente do menininho que foste um dia e que sonhava com os mais belos contos que agora vivemos com espanto e felicidade contida. As estrelas explodem em nossos olhos e através dos anos ainda somos aquelas duas crianças que brincavam na praia levemente atingidas pelas ondas, pelo silêncio profundo e inquestionável do oceano.
     Pergunto-me como diabos conservamos a tal essência que nos faz sorrir com alegria de sonho, com o que jamais pode acontecer e já aconteceu mesmo assim. Pergunto-me se criamos esse amor “maior que a vida”, em tuas próprias palavras, ou se ele nos foi outorgado, inexorável como Merlin dizia ser o destino. Talvez tenhamos decidido que simplesmente podíamos fazer isso e fazemos até hoje, ponto. Sonhamos juntos e ultrapassamos as ondas, o silêncio, o piano e a neve.
    Átomos. Inúmeros átomos em sintonia dessincronizada como uma música surda que viaja do ártico ao antártico cegamente apenas para que o grande amor perdido não se esvaia na frivolidade do mundo, esse mundo vulgar que sempre segue em frente, como se não tivesse história nem cicatrizes. Tão triste um mundo que seguiu em frente. Algo de trágico e irremediável, como a fé perdida ou mesmo a inocência, o amor que não nos toca mais..."

    Ouviu um barulho de passos apressados na escada e logo ela entrou correndo no quarto.
    - Não era esse que...
    Mas parou ao ver a expressão dele. Aquela gravidade, a intensidade mais bela de seus olhos cinzentos absolutamente dentro dela. Calaram-se em beijos, em mais do que isso. Nesses momentos pareciam ser mais do que apenas duas pessoas que viviam juntas, pareciam existir juntas, numa extensão sem emendas... Perdiam-se um no outro e as palavras deixavam de existir, apesar de terem sido elas que os guiaram um para o outro. No escuro. 

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