O vento estava forte, assim como as ondas que em fúria batiam na praia. Mesmo assim ela estava imperturbável, de olhos fechados e braços abertos, parecendo prestes a ter os cabelos e o vestido arrancados pela força daquela tempestuosidade, mesmo sob o sol róseo do entardecer. Agora seus cabelos eram mais arruivados e mais longos, seu corpo mais branco, mesmo que em seus olhos escuros ainda houvesse a mesma profunda lacuna que sempre lhes dera um enigma e uma beleza intrigantes. Permanecia em silêncio, adorando o mar com a mesma pureza e intensidade de quando era criança - mas agora não podia sentí-lo ali, tão próximo o quanto antes, amando-a da mesma forma. O que mais lhe desagradava, porém, era que não a havia perdido apenas para o mar, mas também para um poeta que ele não compreendia bem com que força, mas que a conquistara profundamente, como poucas pessoas já haviam conseguido, e ele próprio conhecia-a bem o suficiente para saber disso.
Aquele homem alto e, de fato, possuidor de uma figura poética com sua pele clara e seus cabelos negros, seus olhos de lobo que ardiam tristes e apaixonados para ela, aquele homem levava-a onde ele simplesmente não podia alcançá-la, onde ela era esposa, onde não havia lugar para mais nada no mundo. Ele sabia que lá havia a neve, os belos e metálicos lagos, o silêncio, o frio, a profundidade e a beleza, um mundo que ele adoraria adentrar, mas fingia não entender bem porque aquela terra a havia roubado, junto com aquele mundo onde ele não cabia. Ou pelo menos acreditava não caber.
Ah, os anos haviam passado rápido. Ela era uma criança quando ele morrera, mas não a havia abandonado nunca, e ambos sabiam disso. Mesmo assim, era incômodo vê-la tendo uma vida inesperada para ele, envolvida em coisas que ele sequer imaginara conhecer, olhando com tanto amor um perfeito estranho como aquele poeta. Mas apesar do espetáculo da praia em sua frente, apesar de pertencer à terra onde havia chegado, seus olhos tornavam-se marejados quando ela olhava para trás. No fundo, nada a havia tirado dele, nem nunca tiraria. Jamais.
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