Ele adorava surpresas, mas aquela parecia ser absurdamente estranha. Na véspera de seu aniversário, ou seja, na véspera de Natal, ela saiu cedo de casa e seus melhores amigos vieram arrumá-lo à tardinha, dizendo que ele tinha de estar pronto para uma surpresa. Trouxeram-lhe trajes formais incomumente belos e ele os vestiu, prendendo apenas uma parte dos longos cabelos negros. Arrumou-se bem, conforme lhe pediram, afinal, que opção tinha? Apesar disso, achou que a brincadeira estava indo longe demais quando quiseram vendá-lo antes de entrar no carro que o levaria até a surpresa. Uma ligação dela o convenceu, afinal, ele adorava essa época do ano e sentia-se excepcionalmente animado. Quando desceu do carro, subiu degraus e andou cerca de cem metros, guiado por seus amigos, onde ouvia murmúrios e risadinhas. Esforçava-se por entender onde estava, mas simplesmente não fazia ideia. Sabia que havia muita gente naquele lugar e que ele tivera que subir mais alguns degraus, ficando de frente para a direção de onde viera parado. Achava que então seus amigos lhe tirariam a venda, mas estava enganado. Teve de ficar um bom tempo apenas parado ali, ocasionalmente perguntando se já era tempo de saber logo que diabos lhe esperava, mas seus amigos respondiam-lhe não todas as vezes. Até que os murmúrios aumentaram e, depois de alguns momentos, um de seus amigos tirou-lhe a venda lentamente.
Piscou várias vezes, já desacostumado com a claridade, mas quando a visão entrou em foco ficou sem fôlego: aquela, sem dúvida, era a catedral mais bonita onde já estivera, era a sua catedral favorita. O teto muito alto era amplamente iluminado e a igreja estava delicadamente decorada, como se algo de especial estivesse por acontecer. Percebeu que conhecia praticamente todas as pessoas que estavam ali, e todas estavam vestidas formalmente, olhando-o ansiosas e excitadas. Ele não fazia ideia do que esperavam dele, até ouvir as portas se abrindo e ter súbita consciência do que estava acontecendo: ele estava no altar, afinal, e ninguém menos do que ela entrava ali, com um vestido longo e belo, algo vagamente medieval, com uma bela tiara nos longos cabelos ruivos. O pai dela, entre alegre e contrariado, levava-a pelo braço, enquanto ela sorria feito uma menina, os olhos brilhando tanto que ele podia perceber mesmo àquela distância. Ela o olhou perguntando se ele gostava, se era isso que ele queria, e seu sorriso foi tão tímido e tão sincero que ela não pôde ter dúvidas. Trocou um olhar respeitoso com o pai dela antes de pegar a mão que ele lhe entregava, e viu o quanto era dolorido para ele entregar-lhe a filha. Tentou, mesmo que não soubesse como, demonstrar que a cuidaria e a amaria tanto o quanto possível. Ele lhe sorriu, e então ele pegou a mão dela, e finalmente olhou-a nos olhos. Aqueles olhos castanhos nunca pareciam ter sido tão intensos, tão profundamente alegres. Teve de ter um imenso autocontrole para não beijá-la naquele mesmo instante, mas a cerimônia era algo que ele considerava importante também. Limitou-se a sorrir então, sorrir como nem se sabia capaz, porque aquilo tudo era muito mais do que ele jamais sonhara. E ela lhe sorriu, feliz, tranquila. Como sempre seria, em algum lugar.
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