- Venha para dentro, você vai congelar aí fora! – disse ele, da janela, mas ela o ignorou completamente. Franzindo o cenho, ele foi até a beira do lago, onde ela estava sentada, abraçando os joelhos e olhando para frente, imperturbável.
- Ei, está tudo bem? – perguntou ele, aproximando-se, mas ela permaneceu em silêncio, olhando a neve que começava a cair. Usava uma blusa cavada e ele podia ver seus braços arrepiados, mesmo que ela não desse o mínimo sinal de perceber isso. Depois de alguns minutos, ela finalmente se manifestou.
- Há quinze anos atrás, eu teria uma casa – disse ela, com a voz tão embargada que era difícil de compreender o que ela dizia. – Eu ia ter uma casa, e as coisas ficariam bem, sabe? Porque era tempo de guerra e todos podiam se casar, e as coisas iam ficar bem, eu sabia disso, eu e todos os meus amigos. A esperança ainda existia – ela fechou os olhos e ficou por um bom tempo calada, como se visse seu futuro perdido perfeitamente, como se o penetrasse sem dificuldade alguma. – Quinze anos e dois meses, é. A sua intenção é boa – disse ela, finalmente olhando para ele e dando um sorriso fraco, cansado – mas eu não posso mais. Não dá. Os pedaços que me tiraram não aceitam substituição.
Ela repousou a cabeça nos joelhos, virada para o lado oposto. Ele olhou para o horizonte, calado. Por muito tempo, compartilhara com ela a ilusão de que poderiam construir tudo do zero e serem felizes, como se o passado simplesmente não houvesse existido. Acreditaram, na mais pura inocência, que se podia apagar o que era mais importante para ambos, achavam que seriam fortes o suficientes para simplesmente fazer o que quisessem de suas vidas, como se não tivessem um passado, uma história.
Ele passou um braço sobre os ombros dela e ela recostou sua cabeça no ombro dele. A desconfiança de que as histórias que ele ignorava ainda acabariam tendo uma importância maior do que ele próprio sempre estivera presente, e era óbvio que, de alguma forma, a estrela mais brilhante agora a levava, pegando-a de volta com o direito legítimo de quem nunca esteve distante. Não havia o que dizer ou quem culpar, as coisas tinham de ser assim. Eles sabiam. Provavelmente, ela ficaria ali, mesmo que sua mente estivesse acompanhando o brilho mais forte e mais distante. Na verdade, essa era a esperança dele, que ela ficasse ali, apenas pensando na estrela mais brilhante. Mas o certo e o justo era que ela fosse levada, pelo bem de todos eles. O sorriso que ele sempre quisera ver no rosto dela então seria real e, pela primeira vez, o olhar dela não seria enevoado. Podia quase vê-la sorrindo, finalmente feliz, sob a luz estrelar.
- Eu te amo – murmurou para ela, que havia fechado os olhos e repousava tranquila nele. Beijou-a na fronte e ficou ali acordado, a noite inteira. Com ela.
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