Dando uma tragada profunda, ele se levantou da cama onde estivera deitado pelas últimas horas para atender a porta. Estranhamente, não se sentia desolado naquela madrugada, mesmo que tivesse ficado em casa e os tempos fossem difíceis. Ele estava completamente sem dinheiro e desacreditado, as únicas coisas boas que ainda lhe restavam eram dois maços de Marlboro e uma garrafa pela metade de Jack Daniel's. Nunca fora um cara de sorte, de qualquer forma. Mas pelo menos sempre tivera amigos, e sempre tivera a quem amar, mesmo que à distância. Animou-se então, a caminho da porta. Poderia ser ela, afinal de contas. Sempre poderia.
Sem coragem de olhar antes pelo olho mágico, ele abriu a porta num ímpeto, assustando-a, mas logo a fazendo rir. Sim, era ela. Apesar de estar rindo, parecia ter chorado. Sem dizer nada, ele a abraçou fortemente. Ela correspondeu com mais intensidade do que geralmente o fazia.
- Como você está? - sussurrou ela, sem largá-lo. A voz baixa e perto de seu ouvido causava-lhe coisas que ele ficava grato por ela não saber.
- Indo, não é mesmo? - respondeu ele, com um sorriso forçado, enquanto ela entrava e ele fechava a porta. Ele parou, observando-a. Ela largou a bolsa e acendeu um dos cigarros dele. Deu uma longa tragada, a aliança parecendo reluzir na mão esquerda. Ela era tão jovem, tão linda - por que diabos havia então se casado com um homem tão violento, tão diferente dela? Ele só compreendia porque sabia que ela amava o marido profundamente, sabia que ela sempre sonhara com isso. Mas isso nunca o impediu de amá-la.
- O que foi? - perguntou ela. - Eu vim aqui para te ouvir desabafar, achei que você não queria ficar me assistindo fumar apenas.
- Não não, é claro que não - apressou-se ele a sentar-se ao lado dela, ajeitando seus própios cabelos crespos, longos e loiros que lhe caíam sobre o rosto. - Não acredito que você esteja aqui.
- Nem eu. Ele ficaria furioso e teria mais um ataque se soubesse disso, mas no fim ele vai ter de aceitar que você também é importante para mim, muito importante - ela sorriu, com naturalidade. Ele ficou paralisado diante das palavras dela.
- Muito importante? - repetiu, ainda abismado.
- É claro, por que a surpresa? - ela riu, mas logo parou ao perceber a gravidade do olhar dele. Assumiu também uma gravidade, uma intensidade inesperada. - É claro que você é muito importante. Você esteve comigo o tempo todo, passamos pelas maiores merdas e por muita coisa boa juntos. Você foi quem esteve lá por mim quando eu caí e não queria mais levantar, ficou do meu lado mesmo quando eu estava fazendo besteira. Você cuidou de mim despretensiosamente, e isso não tem preço.
Ele não conseguiu responder, tanto por não ter palavras, tanto por não ter coragem de dizer-lhe a verdade. Como revelar que a amara desde sempre? Ela tinha uma vida completamente alheia a ele, tinha seu casamento, seus estudos, sua vida, enfim. E ele se afastava cada vez mais, tendo outros compromissos, levando uma vida longe da dela. Mas ainda assim, nada nele mudava. Vira-a crescer e amar imensamente aquele que sempre fora um de seus melhores amigos, e agora que ele havia lhe virado as costas, ela continuava ali. Mesmo com o risco de perder o homem que amava, ali estava ela, simplesmente porque ele parecia precisar dela. Isso também não tinha preço.
Mas o que ele não sabia era que ela também tinha esse amor reprimido, silenciado pelos sonhos errôneos. Não era, como ele pensava, pura imaginação o brilho no olhar dela. Desde quando anunciara que estava com um de seus melhores amigos, ela viu a mudança, a decepção nele. E percebera o real significado disso. Só não esperava que a confirmação de suas suspeitas pudesse afetá-la tão profundamente.
As mesmas lembranças simples e belas atormentavam a mente de ambos. Madrugadas insones e dolorosas, noites bêbados e sentindo-se donos do mundo, dias de ressaca, dias de diversão, dias de dedicação... Enfim, tudo o que passaram juntos. No fim das contas, haviam passado anos praticamente vivendo juntos e nem se deram por conta do que isso lhes causava. Até aquele instante, até aquele momento suspenso no tempo. Os olhos verdes brilhavam tanto quanto os castanhos e nada mais brilhava na penumbra do quarto vagabundo de hotel. Estavam a milímetros de distância um do outro, e mal ousavam respirar - sabiam que um movimento mínimo em falso poderia causar uma reação em cadeira irreversível. Apesar de ser o que mais queriam, não conseguiam se mover, agir por fim. Sabiam que era um passo muito maior do que podiam medir, com implicações eternas. Nada mais seria o mesmo se avançassem, mas também já haviam ido longe demais para recuar.
Há anos eles se sentiam assim. A vida havia mudado várias vezes para ambos mas a ligação perdurava, era a única coisa que ainda resistia apesar de todo o resto. Ele já havia desperdiçado tempo demais, repentinamente se dava por conta disso. Já havia desperdiçado 15 dos seus 46 anos tentando conviver com a dor de não possuí-la por inteiro. Sem hesitar mais, ele se aproximou e ela, apesar de se assustar, não recuou. Não recuou porque sabia que finalmente havia chegado o momento do fim de tanto tempo desperdiçado, de pôr fim à série de erros futéis e desnecessários que eles haviam cometido procurando em outros a cumplicidade que só poderiam encontrar um no outro. Então, os lábios, irremediavelmente se tocaram. E a eternidade finalmente parecia ter começado.
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