sábado, 21 de agosto de 2010

Ao Fim de Tudo.

O relógio do som do carro mostrava: 02:03 am. Fazia calor, mas não a ponto de fazê-la suar. Parou o carro em frente aos portões brancos tão conhecidos, tão sonhados. Olhou para as árvores que ladeavam a subida que dobrava para a esquerda, e sorriu. Nunca se esquecera da primeira vez que entrara ali sendo dona daquilo tudo. E muito mais importante do que isso, sendo mulher dele. Sim, mulher dele, oficialmente, no cartório e na igreja. Exatamente como havia sonhado por toda a sua vida.
Acionou o portão eletrônico com o controle que ainda possuía. Mesmo quando passara um ano inteiro separada dele, jamais deixara de ter as chaves de casa e de saber onde ele estava. Não, ela jamais procurara por isso. Mas ele fazia questão de manter as portas abertas - porque sabia que ela voltaria. Era ruim de admitir, mas sim, todos sabiam disso: ela voltava, sempre voltava.
Dirigiu até a garagem e desligou o carro, acendendo um cigarro e ficando ali dentro. O carro dele estava estacionado na vaga ao lado, como de costume. Era sábado, mas mesmo assim, ele estava em casa. Talvez haja uma festa aqui em casa mesmo, pensou ela. Teve de fumar mais três cigarros antes de ter coragem suficiente para encará-lo outra vez, para pedir perdão. Apesar de ele ter se tornado imensamente mais calmo através dos anos e sempre ter sido amoroso com ela, nunca se sabia quando os olhos azuis se tornariam cinzentos e a tempestade viria. E ela sabia bem o perigo disso tudo.
Respirou fundo. Sabia que mesmo que voltasse para ele sempre poderia partir outra vez. Mas, e se um dia ele não a aceitasse de volta? E se esse dia houvesse chegado? Ela só saberia se tentasse. Olhou para seu celular: haviam inúmeras chamadas daquele que havia mentido para ela. Isso a fez perceber o quanto a volta era certa. Tomou coragem e saiu do carro.
Decidiu-se por ir direto ao quarto que eles dividiam. Não se importava se o encontrasse com outra mulher pela casa (porque ele insistia em manter o quarto dos dois como "sagrado" e jamais dormia com outra mulher ali), pois a monogamia jamais teve grande importância para ambos. Ele gostava de ter mulheres para se divertir, e ela sabia ser discreta para que ele não ficasse furioso. Ele sabia de tudo, mas enquanto não precisasse se confrontar diretamente com isso não se importava. Ela havia sido a única mulher que ele realmente amara em toda a vida, não a perderia por qualquer besteira.
Enquanto atravessava o pátio em direção à casa, viu um vulto na beira da piscina. Por maior que fosse a tensão que a dominava, ela sorriu. Por fim, ali estava ele, sozinho, fumando, com uma garrafa de whiskey, sentado com os pés dentro d'água e olhando a superfície da água, os longos cabelos caindo-lhe sobre o rosto. Ela se aproximou alguns passos sem fazer barulho. Quando ela estava perto da piscina, sem levantar a cabeça, ele falou:
- Dessa vez foram seis meses. Honestamente, achei que seria um ano ou mais. Mas eu estava enganado. Acho que no fundo eu sempre soube que você voltaria logo - ele levantou a cabeça e ela o olhava, apreensiva. Não sabia se ele estava furioso ou alegre, a voz havia sido inexpressiva o tempo todo. Propositalmente, ele ficou por vários segundos a encará-la em silêncio. Sabia que aquilo a assustava mas ao mesmo tempo a fascinava, inexplicavelmente. Então, lentamente, um sorriso foi iluminando o rosto agora redondo e os olhos extremamente azuis e brilhantes. Ele levantou-se, e com um sorriso amoroso, abriu bem os braços. Sem sequer se dar por conta do que fazia, ela correu o mais rápido que podia e atirou seus braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para si com uma força que ela própia desconhecia. Ao sentir um beijo carinhoso e demorado em seus longos cabelos ruivos, ela não pôde evitar que lágrimas escorressem pelo seu rosto. Odiava fazer esse papel ridículo de mocinha-que-reencontrou-o-seu-amor, mas estava de fato emocionada. Não era mulher de chorar por qualquer coisa, mas haviam situações, exatamente como aquela, em que não podia evitar. Sentir o cheiro dele, os braços fortes envolvendo-a carinhosa porém firmemente, passar as mãos pelos cabelos tão ruivos e tão lisos quanto os dela própia, tudo isso tinha um valor incalculável. Ao fim de tudo, ele é o único verdadeiro, pensou. É o único que sempre assumiu suas imperfeições com dignidade, que nunca mentiu para mim.
Ele não queria chorar também, mas sentiu seus olhos se tornarem marejados. Não era nenhuma porra de homem sensível não, era macho de verdade, oras! Mas o problema era que ela era a sua única e total exceção. Num rápido relance, vislumbrou no dedo anelar esquerdo dela a aliança verde que ele lhe dera quando fizeram aniversário de 5 anos de casamento. Lembrava-se perfeitamente bem da noite na praia vazia, dos corpos cheios de areia, dos risos, do brilho no olhar dela na escuridão. Ele lhe comprara uma aliança verde porque essa era a sua cor favorita, disse-lhe brincalhão: "Comprei verde para ver se você usa uma aliança, porque mulher minha não anda solta assim!" e ela ria, ria alegre, encantada com a aliança, encantada com a inesperada delicadeza dele. Era um homem rude, de modos bruscos. Mas com ela se tornava um verdadeiro gentleman. Tratava todas as outras mulheres feito bonecas infláveis, mas ela não. Nela havia algo mais, e ele a amava - profundamente.
Ele a puxou ainda mais para si, beijando-lhe os olhos, o rosto, beijando-lhe os lábios com imensa volúpia. Já estava velho demais para procurar erroneamente em outros corpos o prazer que desejava tanto no dela, e havia estado sozinho esse tempo todo. Além do mais, ela era a única com a qual ele tinha história, a única com quem o prazer se tornava significativo, inesquecível. Ela havia estado ao lado dele quando o mundo inteiro acusava-o por erros que ele não cometera, estivera ao lado dele quando todos os "amigos" dele o traíam. Nunca, jamais mentira para ele ou o abandonara num momento complicado, por menos complicado que pudesse ser. Aguentara o sucesso unânime que ele um dia fizera entre as mulheres, aguentara o falatório de que ela supostamente não era boa o bastante para ele. Ele não sabia, mas ela seria capaz de aguentar tudo isso de novo, porque ela podia sentir que ele a considerava boa o bastante para ele. Isso se confirmava por ele, mesmo podendo ter a mulher que quisesse, manter-se casado e amando ela o tempo todo. Ela via, sentia que ele a amava profundamente. E só continuava vivendo por isso.
Pegando-a no colo, ele começou a andar para dentro da grande casa branca que dividiam já há quase 15 anos. Esquecera-se do whiskey, dos cigarros, de tudo na beira da piscina. Olharam-se sorrindo, alegres. Ele perguntou, com sua voz rouca e grave:
- Onde estão suas malas? - ele perguntava com a certeza de que ela as havia trazido.
- No meu carro - respondeu ela, sorrindo imensamente. Ele amava esse sorriso que só ela sabia dar; esse sorriso sem mostrar os dentes, apenas iluminando seus olhos castanhos. - E você que vai buscar tudo lá amanhã de tarde.
- De...tarde? - perguntou ele, arfando, enquanto subia as escadas com ela no colo. Ela riu mais ainda, aquele riso alegre, quente, que o fazia sentir vivo. - Ora, você já não tem mais 45 quilos e eu não tenho mais 30 anos! - protestou ele, fingidamente bravo, mas logo rindo com ela. Levou-a para o quarto onde tanto se amaram através dos dias e das noites. Afastou-lhe uma mecha de cabelos ruivos e lisos feito os seus própios, e sorriu para os olhos castanhos que o olhavam profundamente. Ele havia procurado o mundo todo, mas só se encontrava nos olhos dela. E ela pertenceria à ele, inevitavelmente, sempre.

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