sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Letargia

Não fazia ideia de quantas horas já fazia que estava ali, calada. Mexia-se apenas para acender um novo cigarro, e logo voltava a deitar-se, olhando para o teto. Dava tragadas profundas, intensas, sem fechar os olhos. Mal piscava, nem isso conseguia mais.
I've really, been the best, the best of fools / I did what I could, yeah. Doía. Doía muito no começo, mas agora havia vindo o entorpecimento. Era sempre assim: o desespero, depois o esquecimento. Que jamais chegava a ser um esquecimento de fato. Apenas deixava tudo momentaneamente suspenso. A mente voava livre entre lembranças sem sentido, via apenas olhos verdes na penumbra. Desejara tanto esquecer tudo, deixar de existir. Mas não. Quanto mais ela fugia, mais se tornava claro que tudo não ocorrera apenas na sua cabeça. Os indícios se tornavam gritantes. Baby, since I've been loving you, yeah / I'm about to lose my worried mind, oh yeah. Jimmy Page invadia o quarto, invadia seu corpo, sua mente. Sentia os acordes vibrarem dentro de si e finalmente fechava os olhos, entregue. Não havia dor nem prazer, amor nem desolação. Entregava-se, desintegrava-se. Existiam apenas acordes e olhos verdes.
Não queria se sentir culpada, não queria que doesse, mas não queria o entorpecimento também. Sabia o quão perigoso podia ser não sentir nada. Havia horas ouvia a mesma música. As lágrimas haviam secado por conta própia. O rosto normalmente branco estava vermelho, manchado de lágrimas, e os cabelos molhados. Havia prometido a si mesma, numa atitude não muito sua, que não derramaria mais nenhuma lágrima por esses mesmos motivos. Mas não adiantava. O peso da realidade a abrangia por completo: então repentinamente lembrava-se de tudo. Seria ela a culpada, ao fim de tudo? Poderia viver com isso tudo? Não podia responder, o tempo talvez respondesse. Queria se entregar, se destruir, mas ainda era cedo. Cedo demais para qualquer coisa. Apenas a preocupação a corroía, aos poucos. Feito um pingo d'água caindo por horas no mesmo lugar.
Tinha amigos, tinha livros para ler, tinha compromissos e mais do que isso, tinha lembranças - mas não tinha o mar para olhar. Não, não podia se sentar numa pedra e ficar por horas ali, em silêncio. Não tinha uma imensidão, um silêncio, um resguardo. Então permanecia ali, absolutamente calada, observando o teto branco e inexpressivo.
Um vento levemente mais forte entrou pela janela semiaberta. Fechou os olhos para sentí-lo, e algo mais a possuiu. Um quê de desolação, um quê de nada mais fazer sentido. Finalmente levantou-se, aproximando-se da janela. Debruçou-se sobre ela, e ficou a fumar, observando a cidade. Muitas luzes já haviam sido acesas mas ainda era cedo, muito cedo. Novamente, uma lufada de vento veio, agora lhe fazendo voar os cabelos e sorrir. Sim, sorrir. O vento a acariciar-lhe o rosto lembrou-a de uma coisa: apesar dos apesares, ainda tinha uma ilusão, uma ilusão final (e grandiosa): ela era a oportunidade da vida de alguém. Assim, grande, bonito mesmo. Sorriu, sorriu alegre, sentia seu coração pulsando outra vez. E os olhos verdes brilhando.

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