domingo, 8 de agosto de 2010

O Começo

Havia acabado de escrever todas as cartas. Conferiu todas e de fato, não faltava nenhuma. Deu um suspiro cansado e sorriu. Ali estavam incontáveis páginas escritas à lapiseira como era seu costume, com sua letra miúda e para muitos incompreensível. Largou sua lapiseira cinza que era um dos poucos objetos que estimava. Levantou-se da cadeira onde estivera sentada pelas últimas horas e se espreguiçou. Olhou para as cartas sobre a mesa e seria inevitável que alguém as encontrasse. Perfeito.
Lentamente começou a preparação. Colocou seus tênis mas permaneceu com seu suéter azul escuro e seus jeans velhos. A roupa honestamente não importava. Só precisava de música. Tirou os óculos de grau e os deixou sobre as cartas. Deu uma última olhada para sua mesa abarrotada de papéis e então deu-lhe as costas, colocando seus fones de ouvido e começando por ouvir Disintegration do The Cure. Adorava aquela música, e essa seria uma noite de The Cure. A última.
Saiu do quarto e deparou-se com a família na sala. Era domingo de noite e ela odiava domingos de noite, eram desoladores sempre, mas esse não. Eles assistiam um programa qualquer na televisão mas não deixaram de perceber quando ela abriu a porta da frente. Prontamente perguntaram onde ela ia, mentiu que ia buscar uns calçados na garagem. Exatamente como previra, eles acreditaram.
Quando fechou a porta de casa, viu-se finalmente sozinha. Olhou para a rua onde sempre morara, estava iluminada pelos postes de luz. Lembrou-se de quando era menina e chegava por ali, todos os dias da escola, sozinha. No começo sentia-se solitária, apesar de ter vários amigos na escola. Mas depois se habitou a caminhar sozinha não só por aquela rua, mas por todas. Sempre sozinha.
Foi encaminhando-se lentamente até o ponto de ônibus. Não tinha pressa, ela odiava pressa. O mundo capitalista vivia com pressa, e ela odiava isso. A pressa causava-lhe angústia, e ela não ia permitir que nada externo a ela a angustiasse, não naquela noite. As ruas estavam desertas mas carros passavam regularmente na rodovia federal. Atravessou pela faixa de segurança e não se sentou no banco do ponto de ônibus, como sempre. Mais rápido do que previra, vinha um ônibus. Ela fez sinal e subiu.
As luzes brancas do ônibus à noite eram desoladoras, como sempre, mas ela estava tranquila. Sentou-se num banco à janela, sozinha, e ficou a observar as ruas pelas quais passava todos os dias, de ônibus. Sabia que logo seus pais dariam pela sua falta e ficariam desesperados procurando-a. Esse excesso de carinho e cuidado por vezes causava-lhe ódio, um ódio desumano e injusto, mas causava. Ela não merecia nada disso, e eles estavam sempre ali, cuidando-a. Ela não era boa o suficiente para merecer isso.
Desceu no centro da cidade, sem saber ao certo onde queria ir. Pensou em ir ao parque onde tantas vezes se sentira desintegrada de si mesma e integrada à tudo, mas só gostava daquele parque de dia. Não havia sentido nenhum, mas ela só gostava de dia - ou talvez o sentido fosse que de dia a grama podia ser vista verde, bem verde, como ela gostava. Pensou em sua escola, que tanto gostava. Mas não, havia o teatro e a fonte antes. Resolveu que passaria pelo teatro, pela catedral e depois iria até a escola. Sim, era isso que faria.
Sempre à passos lentos, foi se encaminhando ao teatro. Rezava para que fosse noite de espetáculo, por milagre ela não sabia a programação dessa noite. Passou por ruas conhecidas e lembranças dispersas lhe vieram à mente, de alguns amigos, alguns erros, e de passeios com sua irmã por ali. Nada comoveu-a, eram apenas lembranças sem sentido, sem valor naquele instante.
Passou pela fonte mas não parou para observá-la. Estranhamente, naquela noite a fonte não a interessava. Foi direto ao teatro. Passava por pessoas as quais sequer constatava a existência. Não procurava ninguém, não precisava mais. Já era tarde.
Parou em frente ao teatro. Estava fechado. Percebeu que estivera secretamente torcendo por isso, mesmo que não admitisse. É que a cada passo que dava sentia menos vontade de parar em algum lugar para pensar. Caminhando assim meio sem rumo era livre e plena e sem pensamentos na noite. Ela caminhava, simplesmente caminhava. A paz de não pensar era-lhe inédita e efêmera. Sentia que logo acabaria, então precisava apressar-se. Não caminhar mais rápido, mas não parar, apenas. Não poderia parar nunca.
Seguiu caminho então, começando a caminhar de olhos fechados para não ver o caminho pelo qual já havia passado com ele naquela manhã luminosa. Ela se lembrava de tudo, eles falavam de poesia, de livros, de Clarice Lispector, os olhos dele brilhavam, praticamente sorriam. Ela não fazia ideia de que aquele seria apenas o começo de um abismo sem fim. Era inocente e despretensiosa, só queria tê-lo por perto. Como sempre.
Seus pés a levaram cegamente até a escola. Parou na frente dela e abriu os olhos: o grande prédio, por mais que ela frequentasse e passasse inúmeras horas dentro dela, ainda a impressionava. Era belíssimo e impregnado de lembranças. Ela sorriu, parecia que sua vida se dividia entre antes e depois de ter ingressado naquela escola. Era onde ela havia conhecido e amado ele, amado por horas em silêncio, apenas observando-o através dos dias. Imagens dele se misturavam em sua mente, os olhos verdes e brilhantes sempre ali, sempre perfeitamente reais e belos. Saiu correndo, correndo cegamente, antes que a memória daquele dia onde a luz do sol matinal incidiu sobre ele e os olhos verdes brilharam tão próximos dela que ela mal pôde existir, vendo ele tão próximo e tão real, ela via cada milímetro dele, cada poro, mas agora era tarde demais, a lembrança invadira-a e a tomara por inteiro, e ela corria corria e chorava sem perceber. Nem sabia onde estava indo.
Quando o ar começou a faltar-lhe ela foi desacelerando, parando ofegante e com o rosto vermelho e manchado pelo choro. Abriu os olhos e sua visão estava meio dificultada pelas lágrimas, mas pôde distinguir a catedral do outro lado da avenida. A catedral era ainda mais amarelada sob a iluminação noturna, mas nada causava-lhe. Lembrou-se que inconscientemente estava refazendo o único caminho que já fizera ao lado dele. Agora, conscientemente, seguiria o caminho. Colocou a tocar Pictures of You. Não se importava mais, se entregaria a dor e se desintegraria, simplesmente.
Recomeçou a caminhar, lentamente outra vez, outra vez calma. As lágrimas desciam quase acariciando-lhe o rosto. Fechou os olhos, entregando-se à música de melodia tão bem trabalhada e com aquela letra que tão profundamente a tocara. Permitiu que todas as lembranças que lhe tocavam viessem à tona. Era inevitável, de qualquer forma.
Abriu os olhos novamente perto do teatro, onde se fazia próximo o fim do caminho que caminhara ao lado dele. Atravessou então a avenida até a metade, como eles haviam feito juntos um dia. Sorriu ao lembrar-se que todos os dias quando passava por ali em seu ônibus, não conseguia acreditar que um dia passara por ali com ele. Olhou para a sua direita antes de atravessar o resto da avenida, e viu um carro vindo realmente rápido. Foi tudo no mesmo segundo: ela percebeu o carro vindo rapidamente, rápido demais e percebeu que ele era verde, mas de um tom de verde que lembrava o dos olhos dele e então ela correu e parou e fechou os olhos e entregou-se à lembrança fixada em suas retinas dos olhos deles brilhantes e verdes olhando os dela intensamente, fixamente e então o carro veio e então veio também outra coisa. O Começo.

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