sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Verdes, Sempre Verdes

O ônibus parecia avançar mais rápido agora, e isso era bom. Ela podia ver as árvores passando mais rapidamente e fazia sol, ela gostava da luminosidade dessa hora do dia. Encostou sua cabeça no vidro da janela e fechou os olhos. Estava extremamente exausta.
Os fones de ouvido certamente poderiam ser ouvidos por alguém por perto, mas ela não se importava, não mais. Arthur Lee cantava Orange Skies pela milésima vez naquele dia, mas ela não conseguia se sentir mais leve. Não. Sua existência havia ganho um peso quase insuportável. Tentava não pensar no que havia ouvido, no que havia sentido, mas era impossível. Tudo o que podia ver era a dor com que aqueles olhos verdes procuravam-na desesperadamente. Lembrava-se perfeitamente disso, dos olhos verdes invadindo-a, sufocando-a, transbordando nela. Era isso. Eles transbordavam sobre ela e ela se perdia.
Por certos momentos, sim, ela havia se sentido feliz - e como havia! Quanto gozo e quanta beleza havia vivido, sim, tanta alegria em viver...Justo ela, que sempre fora tão grave. Sempre fora consciente demais da fatalidade da vida para conseguir ter a leveza de atravessar seus dias alegremente. Agora ela sufocava outra vez. Podia sentir o cheiro de cigarro em seus cabelos, suas mãos, sentir o gosto em sua boca. Era seu cigarro favorito, pelo menos. Havia passado um bom tempo rindo e conversando com outras pessoas, expansiva, alegre, como se nada de pesado houvesse em sua mente. Mas não. Ela sentia, a cada minuto, a gravidade de tudo. Falava frivolidades e poucas vezes de assuntos que realmente lhe interessavam, porque esses assuntos a remetiam imediatamente ao estado em que sua vida se encontrava. E este era incompreensível.
Haviam tantas pessoas. Sim, e tantas que se importavam. A gravidade dos olhos pequenos e castanhos dela dizendo-lhe que ela era incrível, dizendo que lhe amava. Os abraços, os carinhos, os sorrisos, as perguntas ansiosas pelo seu estado de espírito. A voz que sempre lhe elogiava, rasgando-se em elogios exaltados, os elogios ecoavam em sua cabeça, não só na voz dela, mas em muitas outras vozes, elogios, elogios - mas não, ela nunca acreditaria. Não que não confiasse nela, longe disso. Mas era realista, sabia de suas própias limitações e, principalmente, do quão pequena era. Ainda teria que melhorar muito para chegar aos pés da pessoa que lhe diziam que ela era.
O problema era que ninguém sabia de fato da sua pequenez. Não, ninguém parecia perceber que ela era apenas mais uma na multidão - sim, talvez com roupas um pouco diferentes, mas simplesmente porque só usava o que lhe fazia se sentir bem. Ninguém parecia perceber que ela era apenas uma menina perdida, que lia livros, ouvia discos, existia e escrevia simplesmente para tentar ser melhor, para tentar fazer com que sua vida adquirisse alguma beleza, algum valor. Não viam sua grande fraqueza, sua constante depressão, sua busca desesperada por sentido. Porque honestamente, já não fazia mais sentido para ela.
Sim, ela ficara sabendo. Sabendo que os olhos verdes haviam chorado, haviam caído por ela. Não sabia o que pensar ou no que acreditar, mas as palavras eram coerentes demais para serem deixadas de lado. Podia sentir a destruição daqueles olhos, daquela voz melodiosa, e não queria isso, nunca quisera. Lembrava-se da angústia, do brilho dos olhos - e do amor. Sim, via, sentia isso. Tinha a plena consciência de que costumamos enxergar apenas aquilo que queremos, mas haviam coisas transparentes demais para se esconderem assim. Não poderia assistir à destruição, não poderia se importar, mas como tirar isso tudo de sua vida? Como tornar-se alheia aos olhos verdes, insistentes, brilhantes, constantes...Não, ela não poderia simplesmente apagar tudo aquilo. Mas não sabia o que viria pela frente - e tinha medo.
Desceu do ônibus automaticamente, seguindo aquelas ruas sem sentir. Só se deu por conta de onde estava quando passou pela rua por onde havia corrido feliz, extremamente feliz, porque naquela dia havia sentido uma profunda esperança de que finalmente poderia se perder nos olhos verdes e brilhantes. Mas já não fazia sentido, e ela seguia caminhando. Ajeitou os óculos de sol e desligou a música. Não ouviria The Cure, não, não se destruiria. Não agora.
Sabia que, ironicamente, assim como ele dizia, o tempo era a solução. Mas lembrou-se de algo: haviam outros olhos verdes. Eram de outro tom de verde, mas brilhavam também. Sim, os outros olhos verdes também brilhavam, também a procuravam entre as outras pessoas, também se iluminavam quando a viam. Mas esses, esses sim estavam sempre perto dela. Esses a ouviam, não lhe pediam promessas, não lhe pediam a eternidade, tampouco sonhos em comum. Simplesmente estavam ali, porque os castanhos olhos dela também estavam, e isso bastava. Sorriu, por fim. Sempre há motivo para viver de novo, lembrou-se. Chegou em casa, largou suas coisas e parou, depois de tanto tempo, para olhar sua flor amarela que crescia no quintal. Sorriu imensamente, como se a flor fosse a sua própia esperança ali esquecida. Sim, continuaria vivendo - por outros olhos verdes, mas sim, verdes, sempre verdes.

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