Repentinamente, em meio à toda terrível angústia, a música começou em sua mente. Primeiro os violinos, e logo a linda voz, o mais perfeito canto lírico. Soprano. Não precisava tomar uma decisão, automaticamente ia se dirigindo à praia. Precisava do oceano outra vez - ou melhor, tomava consciência dessa necessidade outra vez.
Havia virado um clichê se vestir de branco ao procurar o mar? Não importava. Haviam banalizado tantas coisas maravilhosas, afinal de contas, e elas não perdiam seu verdadeiro valor por isso, não para aqueles que sabiam seu real valor. Ela não se importava, definitivamente, com a banalização do que havia de mais belo. Usava seu vestido branco como se essa ideia fosse apenas e unicamente sua, e de fato, era uma necessidade própia dela.
O mar estava agitado e a noite, completamente sem estrelas. O mar revolto parecia reclamar sua ausência por tanto tempo, mas ela estava de volta, definitivamente. Não se demorou muito olhando o mar, foi direto à pedra onde costumava passar horas olhando o mar. Com uma certa dificuldade, conseguiu escalar a pedra e finalmente viu-se de pé sobre ela, tendo uma visão plena do oceano revolto e quase negro à sua frente. A sua visão. Inesperadamente, sentiu sua pulsação aumentar, seus olhos se tornarem nebulosos. Ali era seu lugar, ali estava perfeitamente segura - por que se permitira ir além disso? Por que buscara uma vida comum, se só podia ser forte dessa forma e sabia disso? Quando as respostas para essas perguntas ameaçaram vir e destruí-la, ela viu, ao longe, um vulto que se aproximava. Reconheceu prontamente, mas teve medo de acreditar que era real. Mas aos poucos sim, se tornava verdade sua boa suspeita.
Usava um longo vestido vermelho. Ela continuava tão linda o quanto sempre fora, e aproximava-se com um sorriso maternal. Os longos cabelos negros pareciam um véu voando livremente, e a pele clara se tornava quase espectral sob o luar. De longe, podia-se distinguir os olhos verdes brilhando, enquanto, com os braços abertos, ela corria até a menina sobre a pedra. Logo se encontraram e se abraçaram longamente, a mulher beijando os cabelos da menina maternalmente.
- Finalmente você veio - falou ela, com alegria. - Finalmente! Nós todos sentimos tanto a sua falta que você não pode imaginar. Lembra o quanto eu te chamava da primeira vez em que você caiu, e o quanto você sofreu por me ignorar? Bom, não importa, o Poeta conseguiu te chamar e você agora costuma me ouvir. Deixe-me te ver.
A mulher rapidamente se afastou e olhou cada mínimo detalhe da menina, como se procurasse um mínimo arranhão que fosse. Balançou a cabeça negativamente, com um olhar preocupado:
- Não, você não deveria estar assim, minha querida. Você tem olheiras e perdeu peso, e seus olhos já não brilham como antes. Você estava segura em casa, por que foi procurar por tudo isso? Ah sim, sua eterna insatisfação. Pois bem mocinha, isso está completamente acabado! Você disse que antes que voltasse a nevar você estaria em casa de novo, e daqui uns dias você...
O falatório quase asmático foi interrompido por uma risada. Uma risada alegre e quente, cheia de vida. Uma risada como há tempos a menina não dava. A mulher esqueceu-se de toda sua raiva maternal e riu também, olhando-a amorosamente. Sim, ali estava sua menina, e ainda havia alguma força nela.
- Calma, eu não estou tão mal o quanto aparento. Quero dizer, eu acho, pelo menos. Eu vou voltar para casa com você, sim, e prometo tentar permanecer dessa vez. Já percebi que é a única forma de me manter forte. Eu preciso de você e deles para me suster da melhor forma. Eu estou desmoronando, e não vou aguentar mais nenhum dia longe de casa.
Os olhos da mulher se encheram de lágrimas e ela abraçou a menina, puxando-a fortemente contra si. Estava disposta, como das outras vezes em que a menina aparecera ali novamente, a tentar convencê-la a voltar, mas jamais esperava que ela própia tomasse consciência da necessidade disso tudo. Sorriu alegre, emocionada, aliviada: agora sim eles poderiam salvá-la.
-E...E o que acontece se eu não conseguir? - sussurrou a menina, de fato agora aparentando ser uma menininha assustada. - Quero dizer, e se eu tiver de fato perdido a minha força, a minha capacidade de ver a beleza de tudo?
-Nós duas sabemos bem que você pode se recuperar. Lembra que você passou um ano inteiro longe e se recuperou totalmente? Todos nós acreditamos em você, pequena, e nós estaremos com você. Você não se corrompeu por coisas tão piores, vai deixar que isso te corrompa agora? Depois de tudo que você já construiu?
- Não. Mas eu preciso de ajuda.
As duas se olharam e com um sorriso, deram as mãos e desceram da pedra. Foram caminhando em silêncio pela praia, finalmente voltando para casa. A mulher sabia que a menina iria se recuperar, por mais que pudesse demorar, sabia que sua força de vontade aliada aos cuidados de todos acabaria por dar bons resultados. A menina estava grave e ansiosa, realmente receava ter perdido sua capacidade de acreditar na beleza do mundo e em sua própia capacidade de construir sua força, mas tentaria. Acreditaria no Poeta e em toda beleza desse mundo, apesar de todo e qualquer apesar. E pela primeira vez em toda a sua vida, tentaria o mais difícil: permanecer, de uma vez por todas. E quem sabe? Já conseguira tantas coisas nos últimos tempos que bem no fundo, ainda acreditava em si mesma. Sorriu então, para a mulher e para si mesma. Iria permanecer, sim. Enquanto fosse forte o suficiente.
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