quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Abrigo

"Quando alguém se foi para sempre, não se come" repetiu ela mentalmente em resposta ao estômago que roncava, protestando. Geralmente comia bastante mas naquele dia só havia tomado o café da manhã. Não se importava com isso, não mais. Estava no limite de suas forças, e não comeria para fingir que estava bem.
Entrou no bar com a respiração pesada, a visão meio dificultada nos olhos marejados. Há tempos - 10 meses, lembrava-se - não colocava os pés naquele lugar. Nada havia mudado, continuava sendo o mesmo lugar de luz baixa e com uma névoa de fumaça dos cigarros acesos. Foi caminhando até o balcão, e no caminho viu as poltronas e os sofás verdes, as mesinhas, tudo como sempre estivera. Sorriu, alguma coisa se mantinha firme, afinal de contas.
Um cara que ela conhecia de vista atendeu-a no bar. Era doce, com seus lábios e olhos grandes, seus cabelos crespos e revoltos. Ela pediu uma cerveja e uma carteira de seus cigarros favoritos e sentou-se numa mesa perto do balcão. Acendeu um cigarro e deu uma longa tragada antes de tomar um gole da cerveja. Ele podia não estar ali agora mas certamente, estaria em breve. Tinha a certeza tranquila de que ele viria, pois conhecia ele, conhecia sua forma de tudo dar e nada exigir. E logo viu ele entrando pela porta.
Primeiramente, ele lhe pareceu ainda mais magro. Mas ela podia perceber o sorriso tranquilo em seu rosto magro, e isso a fez sorrir também. Não apenas o sorriso dele, mas ele, em si, fez com que ela sorrisse: seus cabelos longos e castanhos balançando suavemente ao seu caminhar ritmado pareciam-lhe adoráveis.
Ele estava quase na metade do caminho até o balcão quando a viu. Ela lhe pareceu mais magra, com olheiras, pálida, abatida. O brilho de seus olhos, outrora tão intenso, era apenas um resquício no fundo dos olhos castanhos e pequenos. Mas seus lábios avermelhados ainda se curvavam num sorriso tímido. Um sorriso tímido e doce, o sorriso de sempre. Percebeu que ela estava sem maquiagem - e com espanto constatou que se tornava muito mais bela assim. Sem poder disfarçar sua satisfação, encaminhou-se até ela com um enorme sorriso e a tomou nos braços assim que ela levantou. Seus cabelos tão lisos e agora tão longos quanto os dele, continuavam cheirando a rosas e cigarro. Ela se sentiu protegida abraçando aquele corpo magro mas tão caloroso. Como sempre, ele simplesmente ficara feliz em vê-la e a acolheu sem perguntas, apenas sorrisos. Apenas o brilho nos olhos tão castanhos quanto os dela.
Quando finalmente conseguiram se soltar, olharam-se sorrindo, sem alegria ou saudade, mas simplesmente com ternura. Era um tipo raro de carinho que sentiam um pelo outro. Ele passou a mão pelos cabelos dela, observando cada milímetro dela como se fosse a única oportunidade de guardar suas feições. Não perguntou que diabos ela estava fazendo ali depois de tanto tempo ou porque diabos ela sumira, simplesmente sussurrou seu apelido, fazendo-a sorrir e ela pronunciou seu nome, saboreando-o. Os dois sorriram, haviam sussurrado um para o outro, apenas, e se beijaram, com o mesmo carinho calmo de antes. Até segurar seu rosto ela não havia percebido o quanto havia sentido falta daquela pele levemente áspera de barba sempre feita. Repentinamente, intensificaram o beijo num consentimento mútuo de suas necessidades. Precisavam um do outro, como sempre. Mas agora ela precisava mais dele do que nunca.
Lembravam-se bem da primeira noite em que se viram, naquele mesmo bar, afinal, ele era um dos donos. Ela ficara encantada com a beleza dele e ele viu algo mais nos olhos dela. Ficaram olhando-se uma noite inteira e jamais precisaram de outra forma de comunicação. Quando na próxima noite foram apresentados, não precisavam de palavras. Entendiam-se no silêncio, no brilho dos olhos, nos pensamentos não ditos. Os dois estavam em desespero, não suportavam a falta de sentido de seus dias, a apatia de suas existências. Mas nunca precisaram dizer nada disso. Entendiam-se nas carícias trocadas naquela semi-escuridão do bar, nas cervejas divididas, nos sorrisos espontâneos. Às vezes fechavam os olhos para apreciar um solo da mesma música ao mesmo tempo, às vezes estavam lendo exatamente o mesmo livro e não sabiam apenas porque não precisavam conversar. Entendiam-se no desespero e na falta de sentido, justamente porque adquiriam sentido juntos. Mesmo em seus dias mais difíceis, eles viviam madrugadas boas juntos, como na vez em que caminhavam levemente bêbados e alegres e completamente ligados um ao outro. Olhavam-se com amor naquela noite. Um amor carinhoso, manso, certo - e quando partiram o beijo se olharam da mesma forma.
Sentaram-se à mesa e ele pediu ao seu amigo que havia ficado atendendo para trazer-lhes outra cerveja. Prontamente o pedido foi atendido e ele pegou nas mãos de longos dedos brancos que ela deixava sobre a mesa. Ele adorava o toque daquelas mãos em seus cabelos.
- Senti sua falta - murmurou ele, corando levemente. Apesar de sua timidez extrema, sentia que precisava se libertar ao lado dela. Por ela valia a pena enfrentar o terror da própia timidez.
- Eu também - disse ela, sendo mais verdadeira do que jamais esperara. O carinho dominava-a numa onda suave e crescente, olhava para aquele rosto tão bonito e tão tímido e por um momento se esquecia dos olhos verdes e brilhantes que a destruíam. Esquecia-se de tudo diante dele.
Seus olhos tornaram-se marejados outra vez. Estava indo muito bem, até lembrar-se dos olhos verdes e brilhantes - por que amá-los tanto? Percebeu então que qualquer tentativa de força era inútil, ela havia acreditado na beleza e agora havia caído. Não havia como amenizar a dor do aborto das esperanças. Mordeu o lábio inferior, e antes que se desse por conta, foi abraçada fortemente por ele. Sim, ele havia percebido a mudança em seus olhos e sabia o que isso significava, sabia perfeitamente. Apertou-a contra si como se assim não fosse jamais perdê-la, apesar de saber que tudo, inexoravelmente, chegava ao fim cedo ou tarde. Ele havia tido esperanças de que ela descobrisse que a única forma bela e verdadeira de amor era a que tinham encontrado juntos - onde apenas compartilhavam, sem medo e sem mágoa, apenas carinho - sem antes tentar viver em uma beleza inexistente, impossível, idealizada. Mas ela tentara, e no fundo ele sempre soubera que ela tentaria, era verdadeira demais para não tentar. E a prova disso estava nas lágrimas que ele sentia em seus braços.
Era incrível que aquela fosse apenas a quinta noite em que se encontravam. Agora sabiam que precisavam permanecer nessa distância segura, compartilhando o agradável silêncio apenas quando eram levados a isso por qualquer motivo que fosse. Não poderiam tentar ficar juntos, não poderiam jamais tentar construir algo belo e verdadeiro, pois a beleza e a verdade já se faziam ali, naquela cumplicidade silenciosa de brilhos nos olhos e iguais angústias vividas. A beleza estava no carinho, no silêncio, no caminhar na madrugada - e se amavam mais verdadeiramente do que jamais poderiam amar outras pessoas. Ela passaria a noite com ele, não falariam nada sobre seu choro e sua ausência. Fumariam, beberiam e se beijariam a noite toda e como das outras vezes, ele a convidaria para seu apartamento mas desta vez ambos recusariam: sabiam que aquela pouca e inesperada beleza era a única que ainda lhes restava. E era a única beleza que os mantinha vivos.

Nenhum comentário: