"Quando alguém se foi para sempre, não se come" repetiu ela mentalmente em resposta ao estômago que roncava, protestando. Geralmente comia bastante mas naquele dia só havia tomado o café da manhã. Não se importava com isso, não mais. Estava no limite de suas forças, e não comeria para fingir que estava bem.
Entrou no bar com a respiração pesada, a visão meio dificultada nos olhos marejados. Há tempos - 10 meses, lembrava-se - não colocava os pés naquele lugar. Nada havia mudado, continuava sendo o mesmo lugar de luz baixa e com uma névoa de fumaça dos cigarros acesos. Foi caminhando até o balcão, e no caminho viu as poltronas e os sofás verdes, as mesinhas, tudo como sempre estivera. Sorriu, alguma coisa se mantinha firme, afinal de contas.
Um cara que ela conhecia de vista atendeu-a no bar. Era doce, com seus lábios e olhos grandes, seus cabelos crespos e revoltos. Ela pediu uma cerveja e uma carteira de seus cigarros favoritos e sentou-se numa mesa perto do balcão. Acendeu um cigarro e deu uma longa tragada antes de tomar um gole da cerveja. Ele podia não estar ali agora mas certamente, estaria em breve. Tinha a certeza tranquila de que ele viria, pois conhecia ele, conhecia sua forma de tudo dar e nada exigir. E logo viu ele entrando pela porta.
Primeiramente, ele lhe pareceu ainda mais magro. Mas ela podia perceber o sorriso tranquilo em seu rosto magro, e isso a fez sorrir também. Não apenas o sorriso dele, mas ele, em si, fez com que ela sorrisse: seus cabelos longos e castanhos balançando suavemente ao seu caminhar ritmado pareciam-lhe adoráveis.
Ele estava quase na metade do caminho até o balcão quando a viu. Ela lhe pareceu mais magra, com olheiras, pálida, abatida. O brilho de seus olhos, outrora tão intenso, era apenas um resquício no fundo dos olhos castanhos e pequenos. Mas seus lábios avermelhados ainda se curvavam num sorriso tímido. Um sorriso tímido e doce, o sorriso de sempre. Percebeu que ela estava sem maquiagem - e com espanto constatou que se tornava muito mais bela assim. Sem poder disfarçar sua satisfação, encaminhou-se até ela com um enorme sorriso e a tomou nos braços assim que ela levantou. Seus cabelos tão lisos e agora tão longos quanto os dele, continuavam cheirando a rosas e cigarro. Ela se sentiu protegida abraçando aquele corpo magro mas tão caloroso. Como sempre, ele simplesmente ficara feliz em vê-la e a acolheu sem perguntas, apenas sorrisos. Apenas o brilho nos olhos tão castanhos quanto os dela.
Quando finalmente conseguiram se soltar, olharam-se sorrindo, sem alegria ou saudade, mas simplesmente com ternura. Era um tipo raro de carinho que sentiam um pelo outro. Ele passou a mão pelos cabelos dela, observando cada milímetro dela como se fosse a única oportunidade de guardar suas feições. Não perguntou que diabos ela estava fazendo ali depois de tanto tempo ou porque diabos ela sumira, simplesmente sussurrou seu apelido, fazendo-a sorrir e ela pronunciou seu nome, saboreando-o. Os dois sorriram, haviam sussurrado um para o outro, apenas, e se beijaram, com o mesmo carinho calmo de antes. Até segurar seu rosto ela não havia percebido o quanto havia sentido falta daquela pele levemente áspera de barba sempre feita. Repentinamente, intensificaram o beijo num consentimento mútuo de suas necessidades. Precisavam um do outro, como sempre. Mas agora ela precisava mais dele do que nunca.
Lembravam-se bem da primeira noite em que se viram, naquele mesmo bar, afinal, ele era um dos donos. Ela ficara encantada com a beleza dele e ele viu algo mais nos olhos dela. Ficaram olhando-se uma noite inteira e jamais precisaram de outra forma de comunicação. Quando na próxima noite foram apresentados, não precisavam de palavras. Entendiam-se no silêncio, no brilho dos olhos, nos pensamentos não ditos. Os dois estavam em desespero, não suportavam a falta de sentido de seus dias, a apatia de suas existências. Mas nunca precisaram dizer nada disso. Entendiam-se nas carícias trocadas naquela semi-escuridão do bar, nas cervejas divididas, nos sorrisos espontâneos. Às vezes fechavam os olhos para apreciar um solo da mesma música ao mesmo tempo, às vezes estavam lendo exatamente o mesmo livro e não sabiam apenas porque não precisavam conversar. Entendiam-se no desespero e na falta de sentido, justamente porque adquiriam sentido juntos. Mesmo em seus dias mais difíceis, eles viviam madrugadas boas juntos, como na vez em que caminhavam levemente bêbados e alegres e completamente ligados um ao outro. Olhavam-se com amor naquela noite. Um amor carinhoso, manso, certo - e quando partiram o beijo se olharam da mesma forma.
Sentaram-se à mesa e ele pediu ao seu amigo que havia ficado atendendo para trazer-lhes outra cerveja. Prontamente o pedido foi atendido e ele pegou nas mãos de longos dedos brancos que ela deixava sobre a mesa. Ele adorava o toque daquelas mãos em seus cabelos.
- Senti sua falta - murmurou ele, corando levemente. Apesar de sua timidez extrema, sentia que precisava se libertar ao lado dela. Por ela valia a pena enfrentar o terror da própia timidez.
- Eu também - disse ela, sendo mais verdadeira do que jamais esperara. O carinho dominava-a numa onda suave e crescente, olhava para aquele rosto tão bonito e tão tímido e por um momento se esquecia dos olhos verdes e brilhantes que a destruíam. Esquecia-se de tudo diante dele.
Seus olhos tornaram-se marejados outra vez. Estava indo muito bem, até lembrar-se dos olhos verdes e brilhantes - por que amá-los tanto? Percebeu então que qualquer tentativa de força era inútil, ela havia acreditado na beleza e agora havia caído. Não havia como amenizar a dor do aborto das esperanças. Mordeu o lábio inferior, e antes que se desse por conta, foi abraçada fortemente por ele. Sim, ele havia percebido a mudança em seus olhos e sabia o que isso significava, sabia perfeitamente. Apertou-a contra si como se assim não fosse jamais perdê-la, apesar de saber que tudo, inexoravelmente, chegava ao fim cedo ou tarde. Ele havia tido esperanças de que ela descobrisse que a única forma bela e verdadeira de amor era a que tinham encontrado juntos - onde apenas compartilhavam, sem medo e sem mágoa, apenas carinho - sem antes tentar viver em uma beleza inexistente, impossível, idealizada. Mas ela tentara, e no fundo ele sempre soubera que ela tentaria, era verdadeira demais para não tentar. E a prova disso estava nas lágrimas que ele sentia em seus braços.
Era incrível que aquela fosse apenas a quinta noite em que se encontravam. Agora sabiam que precisavam permanecer nessa distância segura, compartilhando o agradável silêncio apenas quando eram levados a isso por qualquer motivo que fosse. Não poderiam tentar ficar juntos, não poderiam jamais tentar construir algo belo e verdadeiro, pois a beleza e a verdade já se faziam ali, naquela cumplicidade silenciosa de brilhos nos olhos e iguais angústias vividas. A beleza estava no carinho, no silêncio, no caminhar na madrugada - e se amavam mais verdadeiramente do que jamais poderiam amar outras pessoas. Ela passaria a noite com ele, não falariam nada sobre seu choro e sua ausência. Fumariam, beberiam e se beijariam a noite toda e como das outras vezes, ele a convidaria para seu apartamento mas desta vez ambos recusariam: sabiam que aquela pouca e inesperada beleza era a única que ainda lhes restava. E era a única beleza que os mantinha vivos.
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