terça-feira, 31 de agosto de 2010

Gabrielle&Gabriella

Eu percebi que a jornada acabou,

Percebi que a vida é sóbria

Shallow Life - Lacuna Coil

Dessa vez, o hotel era de uma qualidade melhor, pelo menos. Gabrielle puxou contra o corpo o sobretudo preto e subiu a enorme escadaria que levava em direção ao sétimo andar. Era um prédio escuro e antigo, no subúrbio de Seattle. Sentia-se extremamente aflita, porque dessa vez ela nem sequer procurara ajuda, já estava se entregando por completo. Respirou fundo antes de entrar no 707, mas como imaginava, a porta estava destrancada.
O quarto era uma bagunça ainda maior do que a que havia sido há cerca de um ano atrás. Agora haviam muito mais carteiras de cigarros vazias, cinzeiros transbordantes, garrafas vazias de vodka e whiskey. O espaço era amplo mas entulhado de coisas; livros jaziam por todos os lados e até mesmo um contrabaixo elétrico repousava de encontro à parede. Instantaneamente, reconheceu o baixo e soube quem estivera ali com ela. Já havia ido longe demais.
Gabrielle estava brava, mas esqueceu-se completamente disso ao vê-la adormecida na cama. A luz da manhã entrava fracamente no quarto, incidindo diretamente sobre o rosto redondo e de traços finos de Gabriella. Os longos cabelos ruivos se espalhavam pelo travesseiro, e o lençol deixava a descoberto os seios brancos e delicados. Dormia com uma expressão séria, quase como se estivesse concentrada em um problema matemático. Uma onda inesperada de ternura e desejo invadiu Gabrielle, e então sem pensar mais, ela tirou o sobretudo e subiu na cama. Gabriella continuou dormindo, então ela foi, aos poucos, subindo até conseguir beijar um dos mamilos rosados. Gabriella então pareceu despertar com um sorriso no rosto. Quando abriu preguiçosamente os olhos, porém levou um susto.
- Gabrielle! Mas que dia...
Ela não respondeu, calando Gabriella com um beijo intenso, que resumia o desejo reprimido durante os meses de ausência. O gosto de cigarro e whiskey ainda persistia na boca avermelhada e perfeitamente desenhada de Gabriella, e ela adorava profundamente isso. O beijo ia intensificando-se, quando Gabrielle se afastou abruptamente, fazendo com que a outra a olhasse, confusa.
- Eu não vim aqui para isso, não posso perder o foco - disse, quase ofegante, fazendo Gabriella rir.
- E desde quando você vem para outra coisa?
- É sério, Gab, é sério - falou ela, atirando os longos cabelos negros para trás. - Você andou se metendo com ele outra vez?
- Com ele quem?
- Você sabe, o Dan.
- Ah sim sim - Gabriella sorriu, acendendo um cigarro. - Até achei que ele estivesse aqui ainda, mas pelo jeito foi comprar comida, ou cigarros. Não sei.
- Por que você se entregou outra vez?
- Porque sim. Ele me faz bem. E eu não podia resistir com ele tão perto.
- Se ele te fizesse bem eu não teria vindo de tão longe para falar com você. Você voltou a fumar e a beber e se entregou de vez, não é mesmo? Por que desistiu de lutar?
- Ah não, não me venha com perguntas difíceis- Gabriella levantou-se dando uma longa tragada em seu cigarro. A nudez dela ainda deixava Gabrielle sem fôlego, mas mesmo assim ela conseguiu prosseguir:
- Você me prometeu que lutaria até o fim. Por que se entregar assim, tão facilmente? Basta um par de olhos verdes e você deixa tudo desmoronar? Você havia construído tudo, e agora vai deixar tudo se esvair tão facilmente?
- Você está sendo cruel e leviana - respondeu Gabriella, a voz repentinamente grave, caminhando pelo quarto, fumando demoradamente. - Não, não foi facilmente que eu me entreguei. Foram sucessivas angústias. Eu não tenho mais forças para seguir lutando, entende? Então eu caí. Mas não quero me destruir outra vez, não quero desistir de todo e qualquer prazer. Quero ao menos ter algo que valha à pena.
- E você realmente acredita que vale à pena se entregar a ele e à essa vida desregrada?
- Não necessariamente, mas não tenho mais escolha. Não tenho estrutura para uma vida normal, nunca tive. Você se lembra do quanto eu estava destruída pela vida normal quando te conheci. E me libertar me trouxe força.
Gabrielle respirou fundo. É claro que lembrava de como ela era quando a conhecera. Não passava de uma menina, tinha apenas 12 anos, mas já carregava beleza e dor em todo o seu ser. Os lisos cabelos ruivos eram ainda mais longos, o corpo mais magro e com curvas ainda indefinidas, mas as esperanças e sonhos já haviam se quebrado. Sim, os olhos castanhos já demonstravam dor e desilusão, desolação. Lembrava-se do toque da boca inexperiente mas surpreendetemente habilidosa, das mãos de longos dedos brancos a tocar-lhe com receio e desejo mas, mais do que tudo isso, lembrava-se da entrega completa, entrega da qual só Gabriella parecia ser capaz. Por isso, amava-a.
- Você não precisa se entregar tão plenamente, meu amor. Você não precisa viver tão intensamente, existir através da dor. Você já foi feliz e era lindo de se ver.
- Não sei viver de outra maneira, só sei me entregar por inteiro, e agora é tarde. Em algum momento, eu sei, ainda havia escolha, ainda havia como recuar, mas nem eu nem ele fomos fortes o suficiente para parar e pesar as implicações disso tudo. Não, nós nos entregamos por inteiro e agora nos despedaçamos. A escolha já foi feita. Agora é só juntar os cacos, é a única coisa que nos resta.
Sem dizer nada, Gabrielle simplesmente foi até ela e a abraçou por trás, aspirando profundamente o cheiro de seus cabelos. Gabriella fez-lhe carinho nos braços, fechando os olhos, resignando-se à sua dor.
- Você é linda - sussurrou Gabrielle - profundamente linda, em todos os sentidos. Lembra que a sua felicidade me contagiou e eu me senti forte outra vez? Pois bem, você tem de ter esperança, meu amor. Sei que você vai insistir nessa entrega, mesmo que doa tanto, porque você já se abriu por inteiro e reconheço o quanto isso é irremediável. Eu vou partir agora, mas se você se sentir forte o suficiente para me procurar outra vez, você sabe onde me encontrar. No fundo, eu sei que você talvez encontre um jeito de lutar mesmo ao lado dele. Eu acredito nisso. Mas não me peça, jamais para parar de te amar, porque nesses cinco anos foi só o que eu soube fazer.
Gabriella sorriu por entre as lágrimas e, virando-se de frente, beijou delicadamente Gabrielle nos lábios. Ambas sorriram, limpando as lágrimas uma da outra. Cair e construir outra vez havia se tornado o ritmo natural na vida delas, e continuaria sendo assim eternamente, elas sabiam. Mas tinham o seu amor e por hora, isso bastaria. Gabrielle partiu em silêncio, deixando-a sorrindo no quarto bagunçado. Não se forçaria a lutar, não tinha forças para isso, mas iria resistir. Sim, iria resistir e continuar amando. Porque era a única coisa que lhe devolvia a leveza e a inocência. Ouviu um barulho na porta, ele havia chegado com cigarros e girassóis. Era tempo de se perder nos olhos verdes de novo, e finalmente, isso podia ser verdadeiramente bom.

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