sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Found

Com um sobressalto, ela acordou-se, sentando-se rapidamente na cama. Outro pesadelo onde aquela velha sensação de irrealidade voltava, a angústia corroendo-na em cada segundo de seus dias. Eles estavam tão entrelaçados que ele acordou no mesmo instante; ainda sonolento e com a voz mais rouca do que o habitual, ele perguntou:
- O que houve, querida?

- Nada demais, só um sonho ruim - disse ela, mais grave do que pretendera, aconchegando-se outra vez ao corpo que ele lhe oferecia. Ela não podia ver o rosto dele, mas ele subitamente ficou apreensivo, começando a acariciar os cabelos dela. Ela fechou os olhos, permitindo-se um profundo suspiro. Quando diabos tudo aquilo teria fim? Sentia-se tão acorrentada o quanto antes de tentar se libertar, então, de que adiantava insistir?
- Você já pensou que, em poucos dias, nós faremos aniversário de quinze anos de casamento? - sussurrou ele, carinhosamente. Ela foi despertada de seus devaneios - todos diziam-lhe que ele era um homem violento e obsessivo, mas eles desconheciam essas madrugadas, esses abrigos que ele parecia ser especialista em fornecer. Sem dramas ou grandes cenas, simplesmente um conforto subjetivo, da forma que ele sabia funcionar perfeitamente. Ele pegou sua mão esquerda e acariciou-lhe a aliança, olhando-a sorrindo. Apesar de ter os olhos cheios d'água, ela retribuiu o sorriso. Na penumbra, só podia ver o brilho dos olhos dele e alguns contornos da barba por fazer. Eles desconheciam essas doçuras súbitas, esses carinhos que só ele sabia fazer sem se tornar detestável. Ela beijou-lhe longamente nos lábios e sussurrou, ainda próxima dele:
- Sim, eu tenho perfeita consciência de que em seis de janeiro faremos quinze anos de casados - ela sorriu, enquanto ele passava a mão por seus cabelos. - Para um casal que não duraria nem seis meses juntos, acho que fomos um tanto longe, não?
Os dois riram levemente, aconchegando-se um ao outro. A diferença de idade, a diferença de personalidade, a diferença de vida fazia com que ninguém acreditasse que ambos pudessem de fato ficarem juntos. Nada disso atrapalhou-os nem que fosse por um momento. Sem que tivessem de se esforçar, as coisas simplesmente foram se acertando, como se esse fosse o rumo natural das coisas - e talvez de fato fosse. Com súbito desejo, ela começou a beijar-lhe no pescoço, apertando-lhe as coxas, puxando-o para si com firmeza. Ele prontamente começou a retribuir-lhe as carícias e em pouco ele penetrava-a intensamente, como de costume, e era tão bom que eles perdiam as contas de quantas vezes repetiam-se nesses gestos. O prazer, ah sim, o prazer que ele lhe proporcionava também era um ponto desconsiderado pelas outras pessoas que os julgavam. E honestamente, nada daquilo nunca importara.
Com as pernas entrelaçadas ao redor do corpo um do outro, eles pararam por um instante, ele apoiou sua face na dela, aspirando seu cheiro, retomando o fôlego. Ela abriu os olhos e ali estava ele, ainda tão atraente o quanto sempre, os olhos fechados, parecendo profundamente concentrado naquele exato instante que estavam vivendo. Talvez, e só talvez, ela realmente pudesse estar presa a ele, entrelaçada de uma forma irreversível, mas de alguma forma, ela não conseguia considerar isso ruim. É certo que por muitas vezes houveram brigas, por muitas vezes ela quis morrer, mas nem por isso eles se amaram menos - e se amaram de uma forma incompreensível para a maioria das pessoas. Ambos poderiam ter qualquer outra pessoa para si, mas queriam um ao outro irrevogavelmente.
Havia um segredo. Um segredo tão íntimo e profundo que ela nem ousava contar a ele própio, talvez justamente por ser tão íntimo que um pouco do sentido desse segredo escapava-lhe, deixava-lhe sem palavras, era mais uma sensação do que um fato propiamente dito ou um sentimento com forma definida. O fato era que ele simplesmente não esperava nada dela. Simples assim. Ele estava ali e amava-a naquelas madrugadas agradáveis, mas amaria-a com o mesmo fervor se fossem tempos difíceis ou se estivesse absolutamente furioso ou desapontado com o mundo. Ela cometia erros, acertos, surtava, encolhia-se, expandia-se, silenciava, e ele estava sempre ali, seus olhos azuis amando-a indefinidamente. Ele era uma paz, uma absoluta tranquilidade de não dever e não precisar nada, não esperar. Ao lado dele não fazia diferença se ela havia sido uma grande atriz ou se nunca havia conseguido mais do que uma pequena participação num seriado de tv, não importava se ela queria trabalhar o tempo todo ou se queria ser ociosa. Ele amava-a além do que os outros podiam percebê-la, amava-a além de sua própia percepção de sentimentos.
Em paz então, os dois fumavam de mãos dadas na semi-escuridão do quarto que dividiam há mais de dezoito anos. O nome dele tatuado no ombro direito era muito mais do que uma marca qualquer, era uma marca interna. Os minutos poderiam ser horas ou semanas, e isso era incrivelmente bom. Perdiam-se na imensidão das noites juntos, e não precisavam de mais nada, silenciosa e subitamente. Encontravam-se um no outro, e era tão simples que chegava a ser raro.

2 comentários:

Karla disse...

Eles desconheciam essas doçuras súbitas, esses carinhos que só ele sabia fazer sem se tornar detestável.

eu entendo perfeitamente ): enfim, você sabe muito bem que eu nunca sei o quê ou como comentar IODSAODHIO mas eu acho válido repetir que você escreve maravilhosamente bem. me apaixono por alguns personagens seus, mas enfim OIASDHOASIH
te amo cris <3

Cristine disse...

Obrigada *-* E sim, tu sabe comentar D:
Também te amo <3