- Desculpe-me pelo atraso - disse ela, dando um sorriso constrangido. Antes que ela pudesse se justificar, ele a abraçou e disse:
- Não tem problemas. Só fiquei um pouco preocupado, achei que você não viria.
- E perder uma festa sua? Nem pensar - sorriu ela, olhando-o meio constrangida, meio encantada. Ele lhe deu uma cerveja e a levou para dentro, onde depois de cumprimentar todos que conhecia, ela voltou a se reunir a ele.
- Então... Como andam as coisas?
- Bem - sorriu ele, encarando sua cerveja. - Muito trabalho, é claro, mas agora chegou a parte boa disso tudo. Haverão inúmeras festas, como é de costume. Até quando você pode ficar? Porque acho que essa semana haverão mais umas duas festas...
- Até quinta, só. Depois tenho um compromisso com o meu namorado.
- Ah - houve um silêncio em que ambos ficaram constrangidos, sem saber o que dizer. Ele podia jurar que ela não parecia confortável em mencioná-lo em sua frente, mas isso era apenas uma hipótese. - Chegou a ler alguma das coisas que eu te dei da última vez?
- Sim - afirmou ela, sorrindo. - E tenho que confessar, sua poesia é simplesmente... perfeita. Não consigo achar outro adjetivo, e olhe que nem tive o tempo que realmente quero ter para dar a devida atenção que tudo que você produz merece - ela ruborizou levemente, e alguém menos atencioso do que ele sequer repararia. - Enfim, sem dúvidas o que eu mais amo é quando você fala sobre os índios...
- Você não pode estar falando sério - disse ele, subitamente comovido.
- É claro que estou, por que?
- Bom, eu geralmente não gosto de nada do que eu produzo - ela ia protestar mas ele fez um gesto com a mão pedindo paciência. - Mas, quando se trata dos índios, até eu realmente gosto. Incrível - ele deu um sorriso tímido, e ela correspondeu, sorrindo mais com os olhos do que com a boca, de um jeito que ele nunca tinha visto em nenhuma outra pessoa - a não ser nele próprio. Mesmo sem dizer nada, ela conseguira convencê-lo de que também achava isso incrível, por mais que não pudesse compreender a extensão que uma simples preferência como essa poderia alcançar um dia. Desde que a conhecera, há dois anos, por alguma razão se encantara por ela, aquela menina de cabelos muito lisos e olhos brilhantes, porém tristes e escuros. Desde então, vinha procurando sinais de que ela era, de fato, digna da imensa ternura que lhe causava. Até então, tudo estava certo, e ela o inspirava, completamente em silêncio, um segredo que ele não compartilhava com absolutamente ninguém, mas que o fazia se perder em pensamentos mais frequentemente do que achava desejável. Entretanto, quando estavam juntos ele se sentia de tal forma que era inútil pensar racionalmente no quão absurdo era deixar-se levar por tais sentimentos. A leveza de seus traços, a voz geralmente baixa e gentil, porém um tanto grave, a paixão pelos livros, o sincero prazer com que ouvia suas canções, fechando os olhos e, ele acreditava que sem perceber, movendo os lábios, recitando sua poesia.
Depois de conversarem por mais um momento sobre as composições dele, sempre entre tímidos e alegres, acabaram sendo afastados pela multidão da festa, reencontrando outros amigos, sendo levados um do outro pelas pessoas que, assim como ela própria, não percebiam que aquilo era bem mais fantástico do que aparentava ser, ao menos por enquanto. Apesar disso, quando ele estava indo à cozinha com a desculpa de pegar mais bebidas porém, na verdade, apenas procurando por um lugar mais calmo, ele julgou ouvir a voz dela vindo da sala íntima. Estava com a mão na maçaneta quando parou. Não conseguiu abrir depois de ouvir o seu nome.
- ... eu sei, eu sei! Ele perguntou até quando eu podia ficar, e eu tive que assumir que tinha compromissos com o meu namorado mas, sinceramente? Eu quis ligar para casa e dizer que eu iria ficar aqui. Quis dizer que eu nunca mais ia sair desse país, mas é absurdo. Seria ridículo, quero dizer, eu tenho poucos amigos aqui e, bem, qual é o sentido de se mudar para cá se ele é simplesmente um sonho inatingível?
- Deixe de ser tão teimosa, pelo amor de Deus! Eu conheço vocês dois, e eu nunca vi ele...
- Não é questão de ser cabeça dura! - protestou ela, parecendo um pouco magoada. Ele pôde reconhecer a outra voz como sendo a da melhor amiga dela. - Sejamos perfeitamente racionais e duvido você ainda ter argumentos. Ele é um compositor fantástico, é excepcionalmente atraente...
- Se você diz...
- É claro que é! Continuando, ele é absolutamente belo, vive do que compõe, é um dos maiores poetas que já existiram e lê em uma semana tudo o que eu já li em toda a minha vida. Sem falar no seu talento incomparável com o piano, nem no fato de que ele é rico e estabilizado na vida enquanto eu mal comecei o ensino médio. Ele tem aqueles olhos cinzentos... Mas deixa para lá. Vê? Nada pode jamais acontecer. Ele é perfeito, eu não sou nada. Deixe-me beber um pouco agora.
Rapidamente, ele foi para a cozinha antes que ela decidisse sair dali e o visse. Chocado, deixou-se cair pesadamente numa cadeira, esquecendo-se completamente do que ia fazer inicialmente. Então era isso? Quão bêbado ele estava para ter ouvido tais coisas? Na verdade, nem um pouco. Havia bebido poucas cervejas, nem de longe o suficiente para embebedá-lo. Ainda assim, não fazia sentido. Ele e a pessoa que ela havia descrito simplesmente não eram a mesma pessoa. Contudo, se ela realmente se sentia assim... Mas não, não podia ser. Tudo ia além do imaginário, então deveria permanecer no nível dos devaneios. Mesmo assim, seu coração batia acelerado e ele não conseguia se acalmar, agitado e ansioso. A voz dela soara triste, resignada, e não havia nada que ele pudesse fazer, não enquanto ela tinha um namorado, não enquanto ele não tinha certeza se aquilo não era um sonho. Seu irmão entrou na cozinha, comentou brevemente que era um milagre que ele não estivesse perto dela, mas por sorte não percebeu seu estado de perturbação.
- Ei, você está aqui - disse ela baixinho, surgindo na porta, um pouco hesitante, como se esperasse permissão para entrar. Sorria-lhe, parecendo triste, na voz um pouco da tristeza que ele julgara ter ouvido ainda ressoando ao longe. Ele fez um gesto para que ela viesse sentar ao seu lado, o que ela fez, e ficou em silêncio por momento, olhando para sua cerveja, cutucando o rótulo.
Ela estava tão perto. Simplesmente... ali. Por um momento ele levantou a mão para tocar seus cabelos que caíam lisos e muito longos, escondendo parcialmente seu rosto dele, porém o gesto se perdeu no ar, um rubor intenso corando-lhe as faces, sua timidez grande demais para deixar que qualquer coisa fosse tornada real.
- Nós deveríamos voltar para a festa - comentou ela, ainda sem olhá-lo, num tom que sugeria que não acreditava realmente no que dizia. Ele não respondeu, apenas procurou um cigarro e tentou encontrar o que dizer, mas simplesmente não sabia.
- Talvez pudéssemos ir até o lago - sugeriu ele.
Ela concordou e eles saíram, evitando se olhar. Ele não compreendia bem porque ela estava subitamente tão tímida, se nem sonhava que ele ouvira sua confissão. Quando estavam saindo para a noite fresca, porém, foram impedidos por seus amigos que queriam que eles participassem de um jogo qualquer, que eles aceitaram, num acordo tácito que isso seria infinitamente mais fácil, pelo menos naquele momento. Divertiram-se, de fato; ainda assim, alguns olhares se perdiam, e apesar de sorrirem quando seus olhares se encontravam, havia algo de diferente, algo que ia além do que queriam admitir para si próprios. E pela manhã, ela estava no outro lado do oceano outra vez.
- Não tem problemas. Só fiquei um pouco preocupado, achei que você não viria.
- E perder uma festa sua? Nem pensar - sorriu ela, olhando-o meio constrangida, meio encantada. Ele lhe deu uma cerveja e a levou para dentro, onde depois de cumprimentar todos que conhecia, ela voltou a se reunir a ele.
- Então... Como andam as coisas?
- Bem - sorriu ele, encarando sua cerveja. - Muito trabalho, é claro, mas agora chegou a parte boa disso tudo. Haverão inúmeras festas, como é de costume. Até quando você pode ficar? Porque acho que essa semana haverão mais umas duas festas...
- Até quinta, só. Depois tenho um compromisso com o meu namorado.
- Ah - houve um silêncio em que ambos ficaram constrangidos, sem saber o que dizer. Ele podia jurar que ela não parecia confortável em mencioná-lo em sua frente, mas isso era apenas uma hipótese. - Chegou a ler alguma das coisas que eu te dei da última vez?
- Sim - afirmou ela, sorrindo. - E tenho que confessar, sua poesia é simplesmente... perfeita. Não consigo achar outro adjetivo, e olhe que nem tive o tempo que realmente quero ter para dar a devida atenção que tudo que você produz merece - ela ruborizou levemente, e alguém menos atencioso do que ele sequer repararia. - Enfim, sem dúvidas o que eu mais amo é quando você fala sobre os índios...
- Você não pode estar falando sério - disse ele, subitamente comovido.
- É claro que estou, por que?
- Bom, eu geralmente não gosto de nada do que eu produzo - ela ia protestar mas ele fez um gesto com a mão pedindo paciência. - Mas, quando se trata dos índios, até eu realmente gosto. Incrível - ele deu um sorriso tímido, e ela correspondeu, sorrindo mais com os olhos do que com a boca, de um jeito que ele nunca tinha visto em nenhuma outra pessoa - a não ser nele próprio. Mesmo sem dizer nada, ela conseguira convencê-lo de que também achava isso incrível, por mais que não pudesse compreender a extensão que uma simples preferência como essa poderia alcançar um dia. Desde que a conhecera, há dois anos, por alguma razão se encantara por ela, aquela menina de cabelos muito lisos e olhos brilhantes, porém tristes e escuros. Desde então, vinha procurando sinais de que ela era, de fato, digna da imensa ternura que lhe causava. Até então, tudo estava certo, e ela o inspirava, completamente em silêncio, um segredo que ele não compartilhava com absolutamente ninguém, mas que o fazia se perder em pensamentos mais frequentemente do que achava desejável. Entretanto, quando estavam juntos ele se sentia de tal forma que era inútil pensar racionalmente no quão absurdo era deixar-se levar por tais sentimentos. A leveza de seus traços, a voz geralmente baixa e gentil, porém um tanto grave, a paixão pelos livros, o sincero prazer com que ouvia suas canções, fechando os olhos e, ele acreditava que sem perceber, movendo os lábios, recitando sua poesia.
Depois de conversarem por mais um momento sobre as composições dele, sempre entre tímidos e alegres, acabaram sendo afastados pela multidão da festa, reencontrando outros amigos, sendo levados um do outro pelas pessoas que, assim como ela própria, não percebiam que aquilo era bem mais fantástico do que aparentava ser, ao menos por enquanto. Apesar disso, quando ele estava indo à cozinha com a desculpa de pegar mais bebidas porém, na verdade, apenas procurando por um lugar mais calmo, ele julgou ouvir a voz dela vindo da sala íntima. Estava com a mão na maçaneta quando parou. Não conseguiu abrir depois de ouvir o seu nome.
- ... eu sei, eu sei! Ele perguntou até quando eu podia ficar, e eu tive que assumir que tinha compromissos com o meu namorado mas, sinceramente? Eu quis ligar para casa e dizer que eu iria ficar aqui. Quis dizer que eu nunca mais ia sair desse país, mas é absurdo. Seria ridículo, quero dizer, eu tenho poucos amigos aqui e, bem, qual é o sentido de se mudar para cá se ele é simplesmente um sonho inatingível?
- Deixe de ser tão teimosa, pelo amor de Deus! Eu conheço vocês dois, e eu nunca vi ele...
- Não é questão de ser cabeça dura! - protestou ela, parecendo um pouco magoada. Ele pôde reconhecer a outra voz como sendo a da melhor amiga dela. - Sejamos perfeitamente racionais e duvido você ainda ter argumentos. Ele é um compositor fantástico, é excepcionalmente atraente...
- Se você diz...
- É claro que é! Continuando, ele é absolutamente belo, vive do que compõe, é um dos maiores poetas que já existiram e lê em uma semana tudo o que eu já li em toda a minha vida. Sem falar no seu talento incomparável com o piano, nem no fato de que ele é rico e estabilizado na vida enquanto eu mal comecei o ensino médio. Ele tem aqueles olhos cinzentos... Mas deixa para lá. Vê? Nada pode jamais acontecer. Ele é perfeito, eu não sou nada. Deixe-me beber um pouco agora.
Rapidamente, ele foi para a cozinha antes que ela decidisse sair dali e o visse. Chocado, deixou-se cair pesadamente numa cadeira, esquecendo-se completamente do que ia fazer inicialmente. Então era isso? Quão bêbado ele estava para ter ouvido tais coisas? Na verdade, nem um pouco. Havia bebido poucas cervejas, nem de longe o suficiente para embebedá-lo. Ainda assim, não fazia sentido. Ele e a pessoa que ela havia descrito simplesmente não eram a mesma pessoa. Contudo, se ela realmente se sentia assim... Mas não, não podia ser. Tudo ia além do imaginário, então deveria permanecer no nível dos devaneios. Mesmo assim, seu coração batia acelerado e ele não conseguia se acalmar, agitado e ansioso. A voz dela soara triste, resignada, e não havia nada que ele pudesse fazer, não enquanto ela tinha um namorado, não enquanto ele não tinha certeza se aquilo não era um sonho. Seu irmão entrou na cozinha, comentou brevemente que era um milagre que ele não estivesse perto dela, mas por sorte não percebeu seu estado de perturbação.
- Ei, você está aqui - disse ela baixinho, surgindo na porta, um pouco hesitante, como se esperasse permissão para entrar. Sorria-lhe, parecendo triste, na voz um pouco da tristeza que ele julgara ter ouvido ainda ressoando ao longe. Ele fez um gesto para que ela viesse sentar ao seu lado, o que ela fez, e ficou em silêncio por momento, olhando para sua cerveja, cutucando o rótulo.
Ela estava tão perto. Simplesmente... ali. Por um momento ele levantou a mão para tocar seus cabelos que caíam lisos e muito longos, escondendo parcialmente seu rosto dele, porém o gesto se perdeu no ar, um rubor intenso corando-lhe as faces, sua timidez grande demais para deixar que qualquer coisa fosse tornada real.
- Nós deveríamos voltar para a festa - comentou ela, ainda sem olhá-lo, num tom que sugeria que não acreditava realmente no que dizia. Ele não respondeu, apenas procurou um cigarro e tentou encontrar o que dizer, mas simplesmente não sabia.
- Talvez pudéssemos ir até o lago - sugeriu ele.
Ela concordou e eles saíram, evitando se olhar. Ele não compreendia bem porque ela estava subitamente tão tímida, se nem sonhava que ele ouvira sua confissão. Quando estavam saindo para a noite fresca, porém, foram impedidos por seus amigos que queriam que eles participassem de um jogo qualquer, que eles aceitaram, num acordo tácito que isso seria infinitamente mais fácil, pelo menos naquele momento. Divertiram-se, de fato; ainda assim, alguns olhares se perdiam, e apesar de sorrirem quando seus olhares se encontravam, havia algo de diferente, algo que ia além do que queriam admitir para si próprios. E pela manhã, ela estava no outro lado do oceano outra vez.
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