quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Mikrokosmos XXXV

    Não deveria ser nem 10 da manhã ainda, mas ela acordou completamente desperta. O quarto estava fracamente iluminado e ela estava sozinha. Mexeu-se preguiçosamente para olhar as horas, o relógio marcava 08:34 a.m.; era surpreendentemente cedo porém, apesar de deitar no lugar dele e tentar dormir outra vez, estava muito acordada. Ao longe, dentro de casa, podia ouvir o piano sendo tocado, uma de suas sinfonias favoritas sendo cuidadosa e talentosamente executada. Sorriu para si mesma, não havia melhor forma de acordar. Preguiçosamente, abriu as cortinas da janela ao lado da cama e olhou lá fora. A neve cobria o pátio e o lago permanecia congelado. Era uma manhã cinzenta e aparentemente muito fria, o céu de aço. Exatamente como ela gostava.
    Depois de passar um tempo ainda deitada, apenas ouvindo a música intensa e bela que chegava aos seus ouvidos, ela se levantou para ir ouvir de perto. Entrou vagarosamente na sala, sem fazer nenhum ruído, apenas para observá-lo. A claridade matinal, ainda que pouca, era o suficiente para iluminar-lhe o rosto enquanto ele executava com visível prazer aquela canção. O piano parecia ser uma continuação dele, de sua música, e em puro deleite, ela ficou a contemplá-lo em silêncio, ora a se perder na música, ora a se perder na visão de alguém tão amado.
    Ao acabar de tocar, ele se virou para ela, só sentindo sua presença depois de tocar a última nota. Olhou-a longamente; queria dizer-lhe tantas coisas, gostaria tanto de poder lhe demonstrar tudo, mas as palavras simplesmente se perdiam no indizível. Como mostrar-lhe sua própria inocência, sua capacidade de fazer com que ele acreditasse outra vez na vida? Mais, muito mais do que isso, como dizer-lhe o quanto temia perdê-la, como era inacreditável que tudo fosse realidade? Um súbito desespero causado por uma profunda ternura tomou conta dele, lembrando-se que aqueles olhos castanhos ainda mantinham a mesma pureza de anos atrás, que ainda eram capazes de amá-lo e compreendê-lo como jamais outra pessoa fizera.
    - Minha criança, minha... -  ele falou sem perceber, passando as mãos pelos cabelos macios que tão proibidos já lhe pareceram, tão inatingíveis quanto o oceano profundo. Ela o olhava apreensiva, como se quisesse entender e arrancar a sua dor, como de fato desejava. Eram nesses momentos que ele desejava ser como qualquer outra pessoa; desejava não ser poeta, não ver e muito menos procurar a beleza, desejava achar absurdo que mesmo sendo dezessete anos mais velho do que ela, houvesse casado e a amasse profundamente como jamais pudera amar alguém de sua idade, desejava que aquele rosto de criança não mexesse com o que havia de mais profundo nele, mas no fundo simplesmente desejava fechar a porta e tê-la, perder-se em seus cabelos longos, sua pele clara e seus seios pequenos, fazer o piano reclamar respeito e ser incapaz de perceber.
    Com um rubor tomando seu rosto muito branco, ele a beijou intensamente, pegando-a no colo e a tocando com toda a volúpia que pulsava em seu corpo, esquecendo-se de tudo o que não fosse aquela pele. Sendo dela.

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