quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Escuridão


- Aleen?

Ela se virou no mesmo instante, um grande sorriso se formando no rosto redondo ao vê-lo. Mesmo sabendo que iria deixá-la envergonhada, ele atravessou a sala e a abraçou. Entre tímida e alegre, ela o abraçou forte, sorrindo contente.

- Como você está? - perguntou ela, olhando-o demorada e carinhosamente. - Faz tanto tempo!

- Estou bem, e você? Faz quase um mês que não nos vemos.

- Bem também - ela se sentou num dos sofás da recepção, sem precisar convidá-lo a acompanhá-la. Por um momento, ficaram apenas se olhando, sorrindo, meio sem saber o que dizer. Sem querer, ele perguntou brusca mas amistosamente:

- Quando você volta para Amstelveen?

Ela o olhou, pensativa. Ele tentara soar seguro, mas seus gestos o traíam. Depois de pensar por um momento, ela respondeu:

- Em breve, eu suponho. Estarei em seu grande evento, obviamente...

- Mesmo? - ele deu aquele seu sorriso de criança, e ela confirmou, subitamente alegre por tê-lo por perto.

-... mas não para ficar. Você sabe, tenho muito que fazer, e não tenho certeza que conseguiria na Holanda.

Ele queria argumentar, mas isso lhe parecia desnecessário e um pouco irritante também, como se ele a perseguisse e ela não se importasse com ele, de fato. Ele sabia que as coisas não eram assim, porém se sentia assim cada vez que tentava convencê-la a morar perto dele. Permaneceu em silêncio, adivinhando que ela tinha muito a falar e, como sempre, acertando.

- As coisas estão prestes a mudar, e eu sinto que isso pode ser bom e definitivo, até. Quero tirar o máximo proveito disso, principalmente depois de tantas lutas fracassadas no último ano. Há muita coisa nova por vir, muita coisa nova já se mostrando, e eu acho isso tudo fantástico...

- Então você precisa de algo familiar e seguro para poder aproveitar isso totalmente, certo? Um solo firme, talvez?

Ela assentiu, olhando-o agradecida e intrigada pela sua clarividência sobre ela. Havia algo incompreensível nesse entendimento, e algo ainda mais incompreensível no carinho e na preocupação que Karel sentia por ela. Apesar de se conhecerem relativamente bem e há algum tempo já, não era o suficiente para que houvesse esse tipo de cuidado. Ele sempre fora indecifrável para ela em alguns aspectos, por maior que fosse o esforço que ele fazia para se tornar límpido.

- Está vendo aquela mulher? - Aleen indicou uma mulher morena e realmente bonita, conversando gentilmente com uma funcionária. Ele assentiu, olhando-a e se lembrando vagamente de já ter visto fotos dela com Aleen. - Ela é minha melhor amiga, e tem sido tudo o que eu preciso desde que eu era muito, mas muito nova mesmo. E pela primeira vez, acho que nós realmente vamos nos juntar para tentar sermos o melhor que podemos ser. Ela é muito mais madura e incrível do que jamais admitiria. Tenho muito o que aprender com ela, Karel. Acho que as coisas...

- Quando você vai aprender que não precisa mudar? -subitamente, ele estava quase irritado. Compreendia a ânsia por desenvolvimento (afinal, ele próprio a possuía), mas jamais considerara que Aleen precisasse disso, não importa o quão imperfeita ela pudesse ser - e talvez, justamente, desistir um pouco, poderia ser um avanço para ela. Sentia-se tenso, triste e subitamente desolado, apesar de seus exaustivos esforços para dominar seus sentimentos. A vida podia ser tão simples, bonita e boa! Por que diabos Aleen tinha que sempre estar tão mergulhada em coisas que ele não podia compreender? Lembrou-se com raiva do último dia em que haviam se visto, estavam fazendo uma caminhada por Helsinki e, todo suado, ele fora abraçá-la, dizendo que ela não podia estar com nojo porque estava suada também. Ela fez uma careta, riu e o abraçou, mas quando estavam se afastando, por alguma razão, ficaram por um longo tempo se olhando, e já adivinhando o que poderia acontecer, Aleen se afastou, subitamente com fôlego para correr. Por que evitar o que poderia ser fantástico? Por que...?

- Eu preciso de tempo, Karel. Muito tempo -disse ela gentilmente, ignorando o tom agressivo dele e o semblante carregado.- Como você mesmo me diz, temos de ter paciência... Nada pode mudar da noite para o dia, e nós sabemos o quanto pode ser demorado para que as coisas sejam acertadas. Por favor, compreenda Karel, eu verdadeiramente me importo com você, mas ainda há muito... Muito...

Antes que ela encontrasse a palavra certa, ele a abraçou fortemente outra vez, emocionado. Queria que ela tivesse coragem, queria que tudo mudasse, queria vê-la melhor, e se isso significava distância, ele não se importaria, afinal, sabia que logo se reencontrariam, tinha certeza disso. Depois de soltá-la, deu carona para ela e para sua amiga, conversou tranquilamente e riu, como se nada houvesse acontecido. Entretanto, o olhar que deu para Aleen ao se despedirem foi o suficiente para que ambos sentissem que não podiam controlar o futuro plenamente, e que se resignariam a esse fato. Trocaram um último sorriso cúmplice e ela entrou no prédio, sem olhar para trás, sem nunca ouvir o "até a próxima vez" que ele murmurou, mais calmo - e muito mais esperançoso.

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