Aparentemente muito exaltada, ela caminhava de um lado para o outro sobre a grama, os cabelos muito lisos escapando suavemente de uma trança quase desfeita, os ombros e os seios fragilmente expostos pela abertura do vestido branco, tão simples mas de tamanha beleza que ele não a faria trocá-lo por nenhum outro. Havia algo de muito indefeso e delicado naqueles ombros, naqueles seios pequenos e muito brancos arfando suavemente com a sua respiração. Ele a observava intrigado; não podia compreender o que estava acontecendo. Ela acariciava as próprias mãos e mexia nas unhas, curtas e limpas, ainda assim parecendo um pouco grandes. Há quanto tempo não a via em trajes tão simples, tão delicada, tão despida? Quase podia perceber os cenários se transmutarem rapidamente nos pensamentos dela, as ondas se transformando na brisa sobre a grama e a luz dourada, as ruas de Londres... O piano, ah sim, o piano e o violino, como sempre em perfeita harmonia, mesmo quando mais opostos impossível.
Ele se aproximou dela, que finalmente o percebeu. Levantou o rosto e isso foi o suficiente; mesmo que ela jamais falasse outra vez ele ainda assim saberia que tudo havia mudado. As íris avermelhadas pelo choro (como, aliás, só ela parecia capaz de obter), o rosto muito nu, os cabelos mais claros, mais esvoaçantes...
- Eu talvez esteja grávida - disse ela, baixinho, a voz embargada. - Grá... vida. Uma criança. Uma vida.
Ele ficou a olhá-la, sem saber o que dizer. Ela não acariciava a barriga, apenas olhava ora para o chão, ora para uma grande árvore que se encontrava ali adiante. Mexia no vestido de algodão, e na cabeça dele os lábios dela ainda se moviam, sempre naquele avermelhado, as palavras ainda saíam daquela boca que lhe pertencia tanto... Poderia tocá-la? Os acordes que emanavam dela eram incríveis, eram o que ele nunca pudera compreender e, exatamente por isso, o que mais o fascinara. Ficou, como um menininho, a olhar sua orelha, a pequena argola de prata, os cabelos repousando atrás dela, logo a bochecha sardenta e avermelhada, o nariz triangular... Quem era ela? As cores pareciam vívidas demais, e tudo intocável, perfeito, feito para ser olhado de longe, intocado, belo. Ela fechou os olhos, e duas grossas lágrimas desceram pelo seu rosto; uma delas desceu lenta e cuidadosamente pelo seu seio esquerdo, e ele não podia parar de olhá-la, simplesmente não podia...
O mar se apresentava rítmico em frente. Ela, num gesto despercebido, repousou em seu ombro, e o choque da realidade fez com que ele se arrepiasse. Passou a mão pelo seu rosto, afastando uma mecha de cabelo que lhe caía sobre os olhos. Ela o beijou, acusando-o por sua beleza. E o momento, em alguma parte, acabou.
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