terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Mikrokosmos XXXIV

        Ela estava sentada em silêncio perto da janela, curvada, parecendo muito concentrada em suas próprias mãos. Os cabelos caíam-lhe lisos pelos ombros, quase escondendo-a dele, cobrindo a alça de sua regata preta. A neve caía incessantemente há horas, e ele havia estado tão concentrado na música que nem percebera ela entrar. Aproximou-se devagar, cuidadoso, e colocou uma mão amigavelmente em seu ombro esquerdo. Depois de um momento ela segurou a mão dele, acariciando-a, mas sem se mover. A maioria das pessoas acharia que algo de ruim estava acontencendo e ficaria preocupada com a quietude dela, desejaria de qualquer forma arrancar uma palavra dela ou mesmo um sorriso, mas ele não. Ele não fazia isso - e essa era uma das razões pelas quais ela jamais queria sair dali. Só ele parecia ser capaz de compreender a amplitude do silêncio, as coisas maravilhosas que podem nascer de pensamentos e tempos difíceis. Aproveitando que ele não podia vê-la, ela se permitiu chorar silenciosamente, sentindo-se aliviada pela primeira vez em semanas.
        Mais do que nunca, naquele momento o respeito e o silêncio dele eram convenientes. Porque naquela noite, depois de cansar de tentar fugir dos próprios pensamentos, ela simplesmente ficara quieta por um momento, deixando que tudo fluísse. Vinha se mantendo ocupada há muito tempo com qualquer coisa que não a permitisse "perder" tempo pensando em si própria, em seus sentimentos. Porém, como era de se esperar de alguém como ela, isso só piorou tudo, e logo ela não podia suportar tanto sufocamento. E tudo isso era causado apenas e unicamente por um sentimento: a culpa. Inexplicavelmente, sentia-se culpada por estar ali, por tê-lo, por ainda estarem juntos e ainda se amarem depois de tanto tempo. Percebia claramente agora que, apesar de sempre ter desejado algo tão bom, jamais pensou que algo assim pudesse durar, e então era como se ela estivesse quebrando alguma regra imaginária, algum limite de tempo do quanto duas pessoas podem estar verdadeiramente juntas. Talvez, não fosse pela beleza dele, por tudo que ele significava para ela, fosse mais fácil aceitar tudo dando tão certo. Entretanto, mesmo depois de tanto tempo juntos, ele ainda era o sonho, o inimaginável, o que ia além de tudo que ela jamais quisera. Contrariando todas as expectativas, ela se sentia casada com ele, com tudo que isso implica, e isso lhe dava uma paz inexplicável - e que, por isso mesmo, parecia ter de acabar. 
        Sem saber como fazer, apenas sentindo que tinha de ir embora mas que simplesmente não podia fazer isso, ela se levantou, olhando-o por um longo tempo. Pôde ver a preocupação nos olhos dele ao vê-la de verdade e, depois de ficar um longo tempo apenas a olhá-lo, inquieta como se tudo doesse ao mesmo tempo, ela pensou, sem perceber que dizia de verdade:
        - Eu te amo tanto, tanto - e ele soube que ela era dele. Soube que, acontecesse o que acontecesse, aquilo nunca mudaria, não quando o atingia daquela forma, não quando ele podia vê-la inteiramente. Ele a abraçou fortemente, deixando que tudo se acalmasse e se aprofundasse, sem jamais se perder, por mais que eles desejassem às vezes. A flauta tocava em sua mente, e ele podia quase adivinhá-la dizendo depois, quando estivesse mais calma "let's slumber in peace, cease the pain", e ele assentiria, porque sabia que isso seria a melhor coisa a fazer, a única coisa a fazer. Enquanto o futuro ainda era belo demais para ser verdadeiro.

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