segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Arte de Contemplar

Sempre fui uma criança calada, triste e um tanto taciturna. Não que houvessem grandes motivos para isso; jamais fui mal tratada e tinha tudo que precisava. Mas essa era a minha natureza, e acima de todas os adjetivos antes citados, havia a contemplação. Eu sou uma observadora nata, e isso se mostrou desde meus primeiros anos de vida.
Durante minha infância, por vezes ficava apenas contemplando tudo. A forma como os adultos conversavam, o que diziam, como diziam. Os sorrisos, os olhares, as expressões, os gestos, as roupas, tudo. Ficava em absoluto silêncio, os olhos atentos a cada minúsculo movimento e expressão. Disso, logo criava repulsa ou simpatia pelas pessoas. Mas minha observação não se limitava às pessoas.
Adorava observar os lugares. Fosse uma casa, uma rua, uma escola, fosse o que fosse. Observava todos os objetos ao redor, as janelas, os móveis, tudo. Por vezes imaginava o que se ocultava por trás de uma porta; seria lá o quarto de uma bela menina? Ou talvez um banheiro, uma sala íntima? Quando haviam fotos, observava as pessoas e imaginava como seriam seus nomes, que personalidade teriam, como seriam seus olhares quando tristes ou indiferentes, ou muito alegres. Podia passar horas perdida nos pensamentos que os ambientes me inspiravam.
Por tanto contemplar tudo, acabei por aprender a admirar pequenas coisas e reparar nos detalhes mais simplórios, nem por isso menos valorosos. Se quando era pequena me sentia estranha por ser uma das únicas crianças que por repetidas vezes preferia ficar observando os adultos conversarem à ir brincar, agora me sinto grata por isso. Não existe visão filosófica sem contemplação, e ninguém consegue tornar-se contemplativo, isso é algo com o que já se nasce.
Ainda hoje, a contemplação é um dos meus maiores prazeres. Observar as pessoas, as ruas, os objetos, uma árvore, enfim, isso insipira questionamentos e instiga novas histórias. Por isso, contemplar é uma arte, e os escritores que o digam. 

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