Obviamente, o dinheiro é algo muito importante. Sem ele, é impossível nos mantermos. Porém, quando chegamos ao ponto de achar que não devemos assistir ao Jornal Nacional porque já temos um problema grande demais em não termos dinheiro, aí acho que devemos repensar um pouco.
Deixe-me explicar melhor essa história de Jornal Nacional. Eu gosto de assistí-lo, e também qualquer outro telejornal. Sou apaixonada por notícias, e gosto de saber de tudo que se passa no mundo. Pois justamente, ouvi uma pessoa falando que não assistia ao Jornal Nacional porque já tinha problemas suficientes, e que não precisava saber dos problemas "dos outros", que já tinha muito no que pensar só considerando as contas a pagar, e que saber os problemas não pagaria suas própias contas. Eu apenas sorri e balancei a cabeça ao ouvir isso. Que grande pobreza de espírito.
Ora, pois então devemos simplesmente nos importar com aquilo que "paga nossas contas"? Apenas com aquilo que temos como obrigação? Eu acho isso de uma terrível pobreza de espírito e também de uma tremenda falta de cultura. Muitas vezes me perguntam porque eu participo de uma banda marcial, se exige tanto esforço. Me perguntam porque eu leio livros que não são pedidos para o PEIES, porque eu estudo assuntos que não fazem parte do currículo escolar, e portanto, não fazem parte das minhas obrigações. A resposta é extremamente simples: porque eu acredito que é isso que faz a diferença; o que você faz por vontade própia, e não porque simplesmente "paga suas contas", ou na linguagem estudantil "vale nota". Eu não consigo me recordar ao certo onde foi que ouvi que o que você faz a mais é que faz a diferença, e essa frase me abrangeu por completo. Acho que são nessas coisas que estão o nosso prazer, a nossa particularidade e nossa verdadeira dedicação.
Afinal, se você está fazendo algo do que gosta, você naturalmente se dedica mais, pois aquilo tudo lhe dá prazer. E se importar com outras coisas além das contas com o que pagar, também é bom. Se você se fechar, preocupando-se apenas nas contas a pagar e na maneira como conseguir esse dinheiro, isso tudo se tornará um tormento e você se tornará uma pessoa estúpida, frívola e provavelmente insuportável. Nada pior do que conversar com alguém que só sabe dizer o quanto está caro o arroz, ou o quanto a conta de luz subiu. Essas pessoas não se dão por conta que existem problemas muito piores no mundo. Que existem crianças que morrem de fome, que perdem seus pais muito cedo, que têm doenças terríveis e não têm nenhuma condição de tratá-las. Que existem pessoas que tem muito dinheiro, mas não têm amigos verdadeiros, e tampouco algo que lhes faça querer viver. Não se dão por conta que existem pessoas sendo violentadas, morrendo no meio da guerra do tráfico sem ter culpa alguma, pessoas sendo assaltadas, seqüestradas, violentadas das piores formas possíveis. E o dinheiro para pagar as contas evita isso? Não.
É ótimo que haja dinheiro sobrando para pagar as contas e ainda ter lazer ou seja lá o que for. Porém, quando há algum pequeno problema com as contas, as pessoas deveriam pensar algo como : "Bem, pelo menos é um problema de dinheiro, que mesmo que seja um pouco difícil, tem resolução. O pior é se eu estivesse numa situação de doença, ou se tivesse sido violentada. Aí sim os danos poderiam ser irreparáveis". Talvez algumas pessoas chamem isso de conformismo barato, mas eu sinto isso como forma de melhor sobrevivência. E eu aprendi isso tudo com as coisas que não, não me ajudam a pagar as contas, mas me tornam uma pessoa mais humana.
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