quarta-feira, 7 de julho de 2010

Acreditar ou não?

É unânime: todos as pessoas que conheço e já leram algo que escrevi dizem que eu escrevo bem. Nunca sei se agradeço, se digo "Bem capaz" ou só se só sorrio amarelo, acho que acabo mostrando os dentes numa tentativa de sorriso e fico vermelha, ou algo assim. Professores, colegas, amigos, parentes, todos já me disseram que escrevo bem. O máximo de crítica foi que eu tinha sido enfática (ou como eles disseram: "tu pegou pesado") em um texto ou outro, mas só no sentido que poderia parecer ofensivo às pessoas que se enquadrassem no que foi dito - mas que nem por isso era menos verdadeiro o que escrevi.
Sei que é extremamente lisonjeador receber elogios, e admití-los assim como eu estou fazendo agora pode parecer uma grande presunção, o que realmente seria - se eu acreditasse nesses elogios. Porque simplesmente não consigo me convencer de que escrevo bem.
Dizem que algumas pessoas repentinamente decidem "ser escritores" e tentam produzir algo que faça-lhes ouvir de todo mundo que são ótimos escritores. Eu jamais sequer cogitei essa possibilidade - aliás, eu própia, apesar de escrever com uma certa regularidade, jamais realmente cogitei ser escritora, quanto mais fazer sucesso com isso. Comecei a escrever por mera necessidade: é a forma que encontro de extravasar meus sentimentos e minhas ideias e dúvidas, que às vezes ficam tão absurdamente fortes à ponto de me sufocar. E então, da mesma forma espontânea que comecei, também comecei a mostrar para as pessoas o que escrevia, simplesmente porque às vezes surge em uma conversa algum assunto sobre o qual eu já escrevi. Comecei a receber elogios então, mas como acreditar? Eu mantenho meus dois pés atrás, obrigada.
Ninguém tem a coragem de dizer: o que você escreveu está horrível. As normas de boa educação jamais permitiriam, e em certos casos a pessoa realmente pode se magoar (principalmente se a pessoa procura ser um sucesso literário). Mas às vezes eu acredito que seja necessário dizer: está repetitivo, está chato, está ralo, está frívolo, ou ainda, "Você realmente deveria tentar outra coisa". Tudo isso deveria ser permitido, porque muito pior é a pessoa mostrar seus textos com orgulho - e todos eles serem mal escritos.
Já li muitos escritores falando sobre (aspirantes à) novos escritores, dizendo que a maioria dos textos que chegam à eles são terrivelmente mal escritos, e ainda por cima acompanhados de uma carta cheia de esperanças literárias do autor. Aí, por mais horrível que seja o texto, os escritores simplesmente não tem coragem de desestimular os "novos escritores" e geralmente ou não dizem nada, ou dizem um elogiozinho só para não desestimular. Já vi meus autores favoritos dizerem que são raríssimos os que escrevem bem hoje em dia (ler Caio Fernando Abreu e Fernando Sabino dizendo isso tirou qualquer mínima convicção que eu poderia ter de que escrevo bem). Aí eu penso: como posso acreditar que realmente escrevo bem se nem tenho a intenção e as pessoas jamais teriam coragem de dizer a verdade, de qualquer forma? Como acreditar que realmente não estou apenas escrevendo besteiras e os outros dizem que é bom só para me agradar? Impossível saber. E o pior é que eu não consigo parar de escrever, nunca. Só não perco o sono e não paro de escrever porque a opinião dos outros é secundária; escrevo por necessidade e apenas admito que é realmente bom que elogiem o que eu escrevo. Mas quando é sincero, é claro.
Já comentei com alguns amigos meus que o maior elogio que alguém pode me fazer é dizer que escrevo bem. Porque em tudo que escrevo coloco minhas opiniões, meus sentimentos, minhas lembranças, enfim, costumo escrever colocando minha essência para fora, de certa forma (e esse negócio de colocar a essência para fora soa horrível, como pude escrever isso?) e então, elogiando o que escrevo, a pessoa está automaticamente elogiando quem eu realmente sou - mas isso contando que eu me expresse realmente bem, à ponto de colocar exatamente o que penso e sinto no que escrevo, e quem me garante que realmente faço isso? Para mim, é claro que parece óbvio, pois tanto o que escrevo quanto o que penso são coisas minhas, então para mim é muito claro. Mas como saber se outras pessoas, certamente com diferentes opiniões e diferentes visões de mundo, vêem o mesmo que eu vejo ao ler meus textos? Impossível saber.
Já me dei por conta que estou num labirinto sem fim, e totalmente assustador. Por mais que eu não queira ser uma "revelação literária", não escrever bem me aflige, não pelo o que os outros podem pensar, mas sim porque escrevo para me expressar, e se não consigo me expressar através da escrita, como farei, então? Se não consigo usar corretamente minha válvula de escape, então escapo para onde? Realmente, é um labirinto sem fim. Vou parando por aqui então, porque quanto mais escrevo, mais me parece que estou escrevendo bobagens desinteressantes - e mais as minhas perguntas se tornam assustadoramente reais.

2 comentários:

Literoscópio disse...

Oi Cristinee! Me identifiquei muito com este seu post, e eu acho que o que faz uma pessoa elogiar o que a outra escreve é muitas vezes a identificação com aquilo, ao menos comigo é assim, ou quando o que está escrito embora totalmente diferente do que pensamos nos cause um momento de reflexão, um choque de realidade, enfim, eu não sei se você realmente escreve bem, para mim sim, mas o que/quem sou eu para julgar? Mas, gosto muito de ler o que tu escreve ;)

Cristine disse...

Concordo plenamente: a gente realmente tende a elogiar quando nos identificamos com alguma coisa. Fico grata pelos elogios, mas infelizmente não posso acreditar (até porque, eu estaria me contradizendo rs). Andei lendo teu blog e tu tá de parabéns pelo que tu escreve. :]